
O novo livro da investigadora e escritora Isabel de Santiago, Henrique Gouveia e Melo – O Homem e o Futuro de Portugal (Leya), chega ao público como um retrato aprofundado de uma das figuras mais marcantes da vida pública portuguesa dos últimos anos. É o resultado de meses de investigação, recolha de testemunhos e de longas conversas com o próprio Almirante. Por isso, a obra oferece uma perspetiva inédita sobre o homem por detrás da farda e sobre a visão que projeta para o país.
Uma apresentação marcada por reflexão e contexto
A sessão de apresentação contou com intervenções que ajudaram a enquadrar o alcance da obra e o papel do Almirante no panorama nacional.
Em primeiro lugar, Duarte Bárbara, editor da Leya, sublinhou o rigor e a disciplina do processo: “A Isabel foi incansável. Chegou-nos um trabalho exigente, construído com método e persistência, e isso sente-se em cada página.” Destacou ainda que o livro não pretende santificar o biografado, mas antes mostrar “a complexidade de um homem que raramente se deixa ver para lá da função.”
Em seguida, o jornalista José Manuel Fernandes reforçou, por sua vez, a oportunidade da obra num momento político particularmente volátil. Para o colunista, o livro oferece “uma chave de leitura sobre a forma como o Almirante pensa o país, a segurança, o mar e a responsabilidade pública”, sendo “um contributo relevante para o debate democrático.”
Um encontro que deu origem a um livro
A relação da autora com Gouveia e Melo começou anos antes, em São Tomé e Príncipe, quando o militar ainda era vice-almirante.
“Cruzei-me com este homem quando estava a fazer o meu estudo de campo em doutoramento. Ele preparava a patrulha das águas territoriais da minha terra”, recordou em conversa com a LusoPress.


O envolvimento do Almirante em várias crises — dos incêndios de 2017 à coordenação da vacinação durante a pandemia — despertou em Isabel de Santiago o desejo de compreender melhor os valores, a personalidade e o pensamento estratégico de uma figura tantas vezes analisada apenas pelo prisma mediático.
Acima de tudo, “quis conhecer esta pessoa mais detalhadamente… Fui reunindo informação, falando com pessoas que o conheciam.”
A investigação mais exigente da carreira da autora
Acostumada a publicar poesia, contos e estudos políticos, Isabel de Santiago assumiu que este foi o trabalho mais exigente que realizou. O processo incluiu recolha rigorosa de testemunhos, cruzamento de fontes e entrevistas prolongadas com pessoas que privaram de perto com Gouveia e Melo — entre as quais Pedro Pita Barros, José Miguel Júdice e vários responsáveis militares e civis.
Com prefácio de José Miguel Júdice, o advogado ofereceu uma leitura crítica e pessoal sobre o lugar do militar na política contemporânea. Realçou qualidades como decência e lealdade, alertando para o contraste entre a frontalidade militar e a subtileza exigida pela política:
“A decência, talvez a maior qualidade… caráter e lealdade. Mas a política exige subtileza, e o militar não é pago para ser subtil.”
Júdice elogiou também a intenção do livro enquanto instrumento de reflexão pública.
A autora reforça que não se trata de um livro de campanha, apesar do contexto político fragmentado e da multiplicação de candidaturas presidenciais. “Não vou afirmar que precisamos deste homem. As pessoas têm que escolher.”
O objetivo, explica, é contribuir para um debate mais informado. “Juntei a opinião de muitas pessoas para que os leitores possam esclarecer dúvidas e fazer uma decisão consciente. Pode ser a favor dele ou não.”
O resultado é, em suma, um retrato multifacetado de um Almirante, uma figura incontornável da vida nacional. Mas também é uma leitura que promete marcar o debate público nos próximos meses.
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