Quantas histórias de vida desaparecem sem deixar rasto porque ninguém fez a pergunta certa no momento certo? Foi precisamente esta reflexão que inspirou a criação da Minha História, uma start-up portuguesa que transforma memórias familiares em livros personalizados, preservando não apenas os relatos, mas também a voz de quem os viveu.

O projeto, criado por um casal luso-francês, nasceu de forma espontânea, longe dos modelos tradicionais de empreendedorismo. Durante uma conversa familiar, Marvin Munos, fundador da iniciativa, decidiu perguntar à sua sogra, natural do Covão do Lobo, em Aveiro, como tinha sido a sua infância. A resposta prolongou-se durante horas e revelou episódios desconhecidos para toda a família.
“Contou histórias que eu nunca tinha ouvido e que, pelos vistos, mais ninguém na família conhecia”, recorda Marvin Munos.
A partir desse momento, o fundador percebeu que muitas famílias guardam verdadeiros tesouros de memória que raramente chegam às gerações seguintes. Afinal, muitos pais, avós e tios viveram acontecimentos marcantes, mas nunca tiveram a oportunidade de os partilhar de forma estruturada.
Histórias que se perdem com o tempo

Segundo Marvin Munos, uma das principais razões para a perda destas recordações reside na falsa sensação de que haverá sempre outra oportunidade para conversar.
“A primeira razão é que pensamos sempre que ainda há tempo. Mais um almoço, mais um Natal, mais uma conversa. E muitas vezes há, até ao dia em que já não há”, afirma.
Além disso, muitas memórias não surgem espontaneamente. Os familiares mais velhos raramente contam episódios importantes sem um incentivo ou uma pergunta específica. Como resultado, histórias sobre a infância, os primeiros empregos, o amor ou a emigração acabam por permanecer em silêncio durante décadas.
Nas famílias emigrantes, esta realidade torna-se ainda mais evidente. A distância geográfica, os compromissos diários e a dispersão das famílias reduzem significativamente as oportunidades de diálogo entre gerações.
Como funciona a Minha História?
Para responder a este desafio, a Minha História criou um processo simples e acessível. Ao longo de doze semanas, cada participante recebe três perguntas por semana através do WhatsApp.
Em vez de escrever textos extensos, os participantes respondem por mensagem de voz, no momento que considerarem mais conveniente. No total, respondem a 36 perguntas que percorrem diferentes fases da vida, desde a infância até aos momentos mais marcantes da idade adulta.
“Não há uma aplicação nova para instalar, nem password para colocar. Não há nada complicado. A pessoa recebe uma pergunta, carrega no botão e fala”, explica o fundador.
Posteriormente, a equipa transforma essas gravações num livro de capa dura. Contudo, o elemento diferenciador do projeto encontra-se na preservação da voz original. Cada capítulo inclui um QR Code que permite ouvir a gravação correspondente.
“O QR Code guarda a voz verdadeira: o sotaque, as pausas, a emoção, às vezes até a gargalhada”, destaca Marvin Munos.
Descobertas que aproximam gerações
Desde o lançamento da plataforma, mais de 150 famílias já participaram na iniciativa. Frequentemente, filhos e netos descobrem episódios da vida dos seus familiares que desconheciam por completo.
“A frase que aparece muitas vezes é: ‘não fazia ideia’”, conta o fundador.
Muitos participantes revelam histórias sobre a juventude, o trabalho ou as dificuldades enfrentadas durante a emigração. Por vezes, irmãos descobrem versões diferentes de acontecimentos que julgavam conhecer. Consequentemente, o projeto cria novas conversas e fortalece os laços familiares.
Além disso, a componente emocional ganha uma dimensão ainda maior quando os familiares escutam as gravações originais. Nesse momento, não recebem apenas um testemunho escrito; reencontram a voz, o tom e a personalidade de quem partilha a história.
A memória da emigração portuguesa

A ligação às comunidades portuguesas no estrangeiro tornou-se uma das marcas mais fortes da Minha História. De acordo com Marvin Munos, os filhos e netos de emigrantes demonstram cada vez mais interesse em compreender o percurso das gerações anteriores.
“Querem perceber de onde vêm, como era a aldeia, porque é que os avós partiram e como foi chegar a outro país”, explica.
Um dos testemunhos mais marcantes surgiu através de uma emigrante portuguesa em França, que recordou a primeira vez que viu neve enquanto seguia para a fábrica onde trabalhava. Para os filhos, ouvir essa memória na voz da mãe teve um significado especial.
“Perceberam que não estavam só a guardar uma memória. Estavam a guardar a mãe deles como ela era”, sublinha o fundador.
Uma herança para o futuro
Mais do que criar livros de memórias, a Minha História pretende construir uma verdadeira herança emocional para as gerações futuras. Cada testemunho preserva experiências pessoais, mas também contribui para a memória coletiva de uma geração que deixou Portugal e construiu novas vidas além-fronteiras.
“Cada livro é uma história de família. Mas, juntos, estes livros contam também uma história coletiva: a história da emigração portuguesa, contada por quem a viveu”, conclui Marvin Munos.
Por isso, a missão do projeto mantém-se simples: incentivar as famílias a fazer perguntas enquanto ainda podem ouvir as respostas. Afinal, muitas vezes, a diferença entre uma memória preservada e uma memória perdida resume-se a uma única conversa iniciada no momento certo.



