Segunda-feira, Agosto 3, 2026
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Calçada artística portuguesa vai ter centro interpretativo

Lisboa tem uma coleção de moldes da calçada artística portuguesa num armazém em Alvalade. Lugar onde são preservados 3.000 moldes originais, os mais antigos datados do século XIX. É um acervo que permitirá criar um centro interpretativo, segundo a Câmara Municipal.

“Estamos, neste momento, a desenvolver o projeto e é um compromisso de mandato. Portanto, até 2029 quero apresentar em Alvalade esta coleção de moldes já integrada no centro interpretativo da calçada artística portuguesa”. Palavras da vereadora de Projetos e Obras em Espaço Público na Câmara Municipal de Lisboa (CML), Joana Baptista (independente eleita pelo PSD), em declarações à agência Lusa.

Milhares de moldes por preservar

Entre os milhares de moldes, a maioria em madeira, desde caravelas a flores e borboletas. E também a sigla CML. A autarca defende esta coleção de património “único e valioso” como “uma montra” da calçada artística portuguesa em Lisboa. E por isso, quer valorizá-la e ter melhores condições neste armazém municipal, para proporcionar a visita ao público em geral.

“Arrecadação de moldes” – lê-se no letreiro em cima da porta que dá entrada para o acervo. O espaço é pequeno, mas alberga “cerca de 6.000 moldes”, dos quais 3.000 são considerados originais. “Já não podem sair para a rua”, conta o historiador Rui Matos. É um dos trabalhadores da CML que, desde 2019, colocaram mãos à obra para arrumar o armazém. Um espaço criado a partir de 1952-1954 e que se encontrava “um pouco caótico”.

Molde mais antigo é de 1948

A missão de organizar milhares de peças transformou-se, antes de tudo, num projeto de inventariação e salvaguarda da coleção de moldes da calçada artística portuguesa. O molde mais antigo encontrado deverá ser o “Mar Largo” da Praça do Rossio de 1848-1849, idealizado por Eusébio Furtado.

Há um com um padrão que simula um mar de ondas pretas e brancas, o mesmo que, décadas depois, foi replicado no calçadão de Copacabana, no Rio de Janeiro. Este molde do século XIX “está em relativo mau estado de conservação, mas ainda persiste”, adianta Rui Matos.

Também da equipa da CML, a historiadora Sofia Tempero acrescenta que a execução do “Mar Largo” no Rossio recorreu à mão-de-obra dos prisioneiros no Castelo de São Jorge. Chamados de grilhetas, foram ajudar os calceteiros.

Com origem em Lisboa, a história da calçada artística portuguesa terá começado, precisamente, a partir do castelo, onde Eusébio Furtado concretizou, em 1841-1842, o primeiro grande pavimento em pedra branca e preta, colocado em ziguezague, segundo os historiadores.

“Há até fotografias antigas que mostram esses homens em linha reta, em filas, a fazerem o aparelhamento de pedra [processo de partir e dar forma à pedra]. Mas estamos a falar de quadrados, cubos de maior dimensão. Que serviam para ir permitindo que as ruas ficassem com um nivelamento maior”. Sofia Tempero explicou ainda que tal facilitaria a lavagem dos arruamentos, bem como a fluidez do trânsito na cidade.

Calçada e azulejos unidos para destacar a cidade e a cultura de Lisboa

Rui Matos adiantou que a calçada artística portuguesa é criada simultaneamente com os azulejos de fachada e com o grande surgimento do fado. Ou seja, “três dos grandes ícones turísticos da cidade de Lisboa e de Portugal são criados na segunda metade do século XIX”. Ademais, numa época em que a capital estava a crescer.

“É feita em espaços urbanos largos, amplos, e é feita para embelezar a cidade”, realça o historiador. Por isso, a calçada artística, presente sobretudo nas ruas e praças do centro histórico de Lisboa, é como uma galeria de arte a céu aberto. Isto é, contempla-se sob os pés de todos os que passeiam na cidade, mas também vista em altura, inclusive a partir de miradouros.

Muito poucas são as calçadas artísticas que mantêm ainda a sua forma original, são refeitas sucessivamente em função das necessidades urbanas, indica Rui Matos. Aliás, destaca a preservação da Praça de São Paulo, de 1850. E, ainda, do projeto de Cottinelli Telmo na Praça do Império, feito para a Exposição do Mundo Português de 1940.

Profissão de calceteiro em risco de extinção

Quanto à coleção de moldes, a equipa da CML, em que se inclui também o arqueólogo Pedro Miranda, fez já a inventariação das peças. Com recurso a fotografias de alta resolução, desenhos à escala e modelação 3D. No fim, criaram uma base de dados, num ‘site’ que deverá tornar-se público brevemente. Isto com o objetivo de saber, “a partir de um molde, se esse molde está na calçada nos Restauradores. Ou numa calçada no Rio de Janeiro, ou numa calçada em Macau”.

Preocupado com o risco de extinção da profissão de calceteiro, o historiador Rui Matos lembra que o município chegou a ter “cerca de 400 calceteiros” na década de 1940. Naquele tempo, com uma estrutura “fortemente hierarquizada, em que existia desde o aprendiz ao mestre”. No entanto, hoje são perto de 20 os trabalhadores nesta área. Estão quase na base da estrutura da função pública e, por isso, “são extremamente mal pagos”.

“É um trabalho extremamente duro, extremamente penoso. E no final da vida têm imensos problemas de saúde”, frisa. E defende a valorização dos calceteiros, por serem, neste momento, “o elo mais fraco” da calçada artística portuguesa.

Além disso, a redução do número de profissionais tem “um impacto brutal” na manutenção da calçada, perante o crescimento da cidade, incluindo a pressão turística na zona histórica.

Concordando com a criação de uma carreira especial, até para atrair jovens, Rui Matos considera “uma excelente iniciativa” a candidatura da arte e saber-fazer da calçada portuguesa a património mundial da UNESCO, mas avisa que, “em termos práticos, não vem resolver nenhum dos problemas” relativamente à falta de calceteiros.

Autarquia compromete-se a preservar tradição milenar

Do lado da CML, Joana Baptista reforça que o município não prescindiu de ter calçada artística portuguesa nos projetos de reabilitação do espaço público da cidade, com novos recrutamentos para ter 40 calceteiros, e realça a diferença entre esta arte, criada ao pormenor com “outra excelência técnica, que é confortável e segura”, e a calçada de vidraço. Esta, muitas vezes, “é pouco mantida, está muito polida. E, naturalmente, as pessoas escorregam”.

Afastando a ideia de falta de manutenção da calçada, a vereadora assegura que tem feito “um trabalho muito significativo”, incluindo reparação de buracos, para reduzir a insegurança: “Porque não podemos apelar e ter uma bandeira política de conforto e segurança urbana e dizer ‘zero buracos’ e continuar a ter buracos nas vias ou buracos nos passeios.”

Além de embelezarem o chão das ruas de Lisboa, destaca a autarca, usam os moldes da calçada artística portuguesa na jardinagem da cidade. Nomeadamente na rotunda do Marquês de Pombal, onde há tagetes trabalhadas em formato de arabescos.

Com SSM // ROC | Lusa

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