As Canções Macaenses, o Chá Gordo e o Batê-Saia, manifestações culturais da comunidade de lusodescendentes de Macau, foram inscritas no inventário do património cultural intangível local, anunciaram as autoridades do território.
Estas três manifestações culturais juntam-se a outras 25 listadas pelo Instituto Cultural, foi publicado em Boletim Oficial.
“Corresponde a um reconhecimento das manifestações culturais da comunidade macaense, dá-nos um novo alento para que continuemos a desenvolver as atividades em torno disto”, reagiu à Lusa o presidente da Associação dos Macaenses (ADM), Miguel de Senna Fernandes, sublinhando que a distinção vai trazer maior visibilidade à comunidade.
Os macaenses são uma comunidade euro-asiática, com raízes em Macau, sendo a maioria dos membros lusodescendentes.
Chá Gordo e Canções Macaenses fazem parte da lista

O Chá Gordo, um banquete de sabores macaenses, “é a refeição mais requintada da comunidade”, explica Senna Fernandes. “Isto sem desprimor de outros pratos. O Chá Gordo corresponde não só a uma prática social, era um motivo de convívio e que chamava as pessoas em torno de uma mesa”, refere.
Notando que esta era uma escolha “quase óbvia”, o responsável lembra que “qualquer grande festa” organizada no seio da comunidade, “fossem batismos, casamentos ou crismas, era através do Chá Gordo que se comemorava”.
Já sobre a Arte de Papéis Decorativos Batê-Saia, trata-se de uma tradição artesanal que envolve o recorte, com vista a criar enfeites. “Perdeu-se praticamente, ainda há algumas artesãs que fazem, e nós também praticamente restaurámos esta prática, continua a haver ‘workshops’ de Batê-Saia”, reforçou o presidente da ADM.
Nesta lista, constam ainda as Canções Macaenses. Mas Miguel de Senna Fernandes espera que a classificação “traga à tona” outras manifestações da comunidade. “Às vezes são, por desconhecimento ou falta de prática social, votadas ao esquecimento”, disse. Referindo como exemplo, a “muito boa tradição” do Micareme, baile de mascarados.
Reconhecimento da herança portuguesa em Macau
De acordo com a Lei de Salvaguarda do Património Cultural de Macau, uma manifestação cultural deve constar primeiro no inventário. O documento tem neste momento 98 manifestações. E, em seguida, pode ser inscrita na lista do Património Cultural Intangível.
Também António Monteiro, à frente da Associação dos Jovens Macaenses olha para este primeiro passo como “bastante positivo”.
À Lusa, o também membro do Conselho do Património Cultural de Macau, órgão consultivo do Governo, salienta a necessidade de trabalhar na transmissão geracional destas expressões.
Monteiro lembra outras associações culturais de Macau, onde se “prepara a juventude para dar continuidade, para a representação de cada manifestação do património intangível”.
O responsável sugere que o património cultural tangível e intangível entre gradualmente nas escolas do território. Quer seja através da criação de uma disciplina ou de maior contacto com líderes associativos.
“Pouco a pouco, tem de ser cada vez mais promovido junto da nova geração. Não só pelo sentido de pertença de Macau, mas também uma pertença identitária para todos os interesses que venham a ser úteis para o futuro”, indica.
Neste momento, entre as 24 manifestações que constam da Lista do Património Cultural Intangível. Entre as quais, as danças folclóricas portuguesas e a confeção de pasteis de nata. Mas também, as procissões de Nossa Senhora de Fátima e do Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos. Estão igualmente classificados o teatro em patuá – crioulo de Macau de base portuguesa – e a gastronomia macaense.
Hoje entraram também para o inventário a devoção e procissão de Nossa Senhora dos Remédios, costumes da refeição do Yum Cha – tradição cantonesa de café da manhã ou ‘brunch’ -, a preparação do chá com leite (‘nai cha’) e a preparação de pão de costeleta de porco, a bifana de Macau (‘jyu pa bao’).
Com CAD // ANP | Lusa



