
À primeira vista, La Cuisine du Portugal avec Amour pode parecer apenas mais um livro dedicado à gastronomia portuguesa. No entanto, a obra editada pela Hachette Cuisine vai muito além das receitas tradicionais. Promovido pela casa Canelas, uma referência da comunidade portuguesa em França desde a década de 1980, o livro assume-se como um testemunho de memória, identidade e transmissão cultural.
Ao longo das suas páginas, os leitores encontram não apenas pratos emblemáticos da cozinha portuguesa, mas também histórias de família, percursos de emigração e recordações que atravessam gerações. Cada receita surge como um ponto de encontro entre o passado e o presente, revelando a importância da mesa na preservação das raízes portuguesas.
Por detrás deste projeto estão Sandra Gonçalves, autora da obra, Antónia Gonçalves, carinhosamente conhecida pela comunidade como “Dona Antónia”, e Sophia Macedo, responsável pela comunicação da Canelas. Juntas, deram vida a um livro que procura preservar um património afetivo construído ao longo de décadas.
“Reunimos algumas das receitas mais queridas e mais pedidas da Casa Canelas. São receitas de família, mas também receitas de atelier, de equipa, de festa e de transmissão. Mais do que reunir pratos tradicionais, a intenção era captar aquilo que existe para além da comida”, explica Sandra Gonçalves.
Um projeto nascido da vontade de transmitir
A génese do livro remonta a 2023, durante o evento Taste of Paris. Foi nesse contexto que Sandra Gonçalves conheceu a diretora-geral das Éditions Hachette Cuisine. Da conversa inicial nasceu uma oportunidade que rapidamente se transformou num projeto editorial de grande dimensão.
“Quando fomos à editora, falámos da história da Canelas, mas também da história da comunidade portuguesa em França. Desde o início, nunca quisemos fazer apenas um livro de receitas. Queríamos fazer um livro de transmissão”, recorda.
Ao longo de quase dois anos de trabalho, a equipa procurou construir uma homenagem às famílias portuguesas emigradas em França e, em particular, aos pais de Sandra Gonçalves, Antónia e Carlos Gonçalves, que assumiram a gestão da Canelas nos anos 1990.
“O objetivo era prestar homenagem a estas famílias, mas também aos meus pais. As pessoas veem a Canelas por fora, mas não imaginam tudo o que isso implicou em termos de esforço e dedicação. Os meus pais viveram para a comunidade portuguesa”, afirma.
Por isso, o resultado final apresenta-se como um livro profundamente pessoal, onde a gastronomia funciona como veículo para contar histórias de vida. “Não é um catálogo, é uma coleção de gestos, de histórias e de receitas. Não foi escrito para contar uma história, mas para a prolongar. Para transmitir Portugal com orgulho”, resume a autora.
Receitas que contam histórias de família

Ao contrário de muitas obras gastronómicas centradas na inovação ou na assinatura de chefs, La Cuisine du Portugal avec Amour aposta na autenticidade das receitas familiares.
As amêijoas à Bulhão Pato, as farófias, o arroz-doce ou o cozido à portuguesa aparecem associados a pessoas concretas e a momentos marcantes da vida familiar. Dessa forma, cada prato ganha uma dimensão emocional que ultrapassa a simples confeção culinária.
“As amêijoas à Bulhão Pato não são uma receita qualquer, são a receita da minha mãe. As farófias são as farófias da minha avó Mélia. O arroz é o da tia Isaura”, conta Sandra Gonçalves.
Segundo a autora, todas as receitas incluídas no livro possuem um significado especial. “Claro que existem muitas outras receitas portuguesas, mas estas são as nossas receitas, aquelas que fazem parte da nossa história.”
A seleção revelou-se um dos processos mais exigentes do projeto. Sophia Macedo recorda que a equipa partiu de cerca de 180 receitas antes de chegar à versão final.
“Tínhamos cerca de 180 receitas. Mas começámos a questionar-nos: livros de cozinha portuguesa já existem muitos. O que é que realmente fala às pessoas? E percebemos que era falar dos figos da Dona Antónia, do arroz-doce da tia Isaura. Era isso que fazia sentido.”
Para encontrar essa dimensão mais íntima, a equipa mergulhou em fotografias antigas, arquivos familiares e inúmeras conversas realizadas durante longos domingos em família. “Foi realmente um trabalho de introspeção”, admite.
Quando as imagens também preservam a memória
A componente visual desempenha igualmente um papel central na obra. Para captar a atmosfera familiar e acolhedora que caracteriza a Canelas, a equipa trabalhou com o fotógrafo Pierre Lucet Penato, colaborador habitual da marca.
“Já tínhamos colaborado com ele em várias fotografias e fazia sentido que fosse ele a fotografar o livro, porque consegue dar às imagens um lado muito caloroso e humano”, explica Sophia Macedo.
O desafio foi intenso. Em apenas dois dias, a equipa preparou e fotografou 90 receitas. Paralelamente, integrou fotografias de família cuidadosamente selecionadas dos arquivos pessoais dos Gonçalves.
Assim, o livro combina imagens gastronómicas com retratos familiares e momentos marcantes da história da família, reforçando a ligação entre cozinha e memória.
“Cada receita tem uma história. Explicamos sempre o contexto, por que razão foi escolhida e o que representa para nós”, sublinha Sandra Gonçalves.
Valorizar a riqueza da gastronomia portuguesa
Além da componente emocional, a obra procura também destacar a complexidade e a riqueza da gastronomia portuguesa, contrariando algumas ideias simplistas frequentemente associadas à cozinha nacional. O pastel de nata constitui um dos exemplos mais evidentes dessa realidade. Apesar da sua aparência simples, o processo de confeção exige conhecimento técnico, tempo e precisão.

“À primeira vista parece apenas um pequeno flan, mas isso é extremamente redutor. Há um processo que demora cerca de 48 horas, com várias etapas de preparação, tempos de repouso e um saber-fazer muito específico”, explica.
Para garantir que qualquer leitor consiga reproduzir as receitas, a equipa trabalhou cuidadosamente todos os detalhes técnicos. “O livro é técnico, mas ao mesmo tempo acessível. Tudo está explicado passo a passo”, acrescenta.
No final, permaneceram 90 receitas escolhidas não apenas pela sua popularidade, mas também pela carga emocional que transportam. “É isso que é a cozinha: dar vida às nossas receitas e às nossas emoções”, resume Dona Antónia.
Um sucesso que atravessa fronteiras
Desde o lançamento, o impacto do livro tem superado as expetativas da equipa. As histórias de leitores que recriam receitas portuguesas em casa representam uma das maiores recompensas para os autores.
Antónia Gonçalves recorda um momento particularmente marcante durante uma feira em Nanterre. “Uma rapariga veio ter comigo e disse-me: ‘Obrigada, Dona Antónia’. Dias antes, tinha feito um bacalhau à Brás para o marido pela primeira vez graças ao livro.”
Para Dona Antónia, esse é o verdadeiro significado do projeto. “O facto de terem o livro nas mãos e conseguirem cozinhar um prato português graças a ele dá-me arrepios de felicidade.”
Entretanto, a obra chegou à Livraria Lello, no Porto, e conquistou uma nomeação para os Gourmand Awards, na categoria “Countries & Regions – Portuguese”.
Ainda assim, para Sandra Gonçalves, o maior reconhecimento surge da identificação dos leitores com as histórias contadas. “Acredito que muitos portugueses em França se vão reconhecer neste livro, porque ele é também um eco da nossa história comum.”
Mais do que um livro de culinária, La Cuisine du Portugal avec Amour afirma-se como uma ponte entre França e Portugal. Em cada receita, preserva-se um saber. Em cada página, transmite-se uma memória. E, acima de tudo, mantém-se viva uma herança que continua a unir gerações através da cozinha e da partilha.



