Aos 81 anos, Joaquim Filipe continua ativo, atento ao mundo e ligado às suas raízes portuguesas. O empresário, conhecido na região parisiense, construiu a vida em França depois de abandonar muito cedo uma aldeia próxima de Ourém. Desde então, atravessou diferentes épocas, culturas e experiências que moldaram a sua visão da vida.

Em entrevista à LusoPress, Joaquim Filipe recorda um mundo muito diferente daquele em que vive atualmente. “Hoje, o mundo é completamente diferente daquele em que cresci. Tudo mudou: a maneira de viver, de falar, de estar uns com os outros”, afirma.
Apesar das mudanças profundas na sociedade, o empresário procura adaptar-se aos novos tempos. Ainda assim, admite que sente falta de determinados valores. “Há hábitos, valores e formas de ser que desapareceram”, lamenta.
O trabalho como prioridade
A história de Joaquim Filipe cruza-se com a de milhares de emigrantes portugueses que partiram para França em busca de melhores condições de vida. Tal como muitos compatriotas, começou do zero e construiu o seu percurso com esforço e persistência.
“Tive patrões que confiaram em mim e me deram responsabilidades, e graças a Deus consegui ganhar a minha vida e fazer o meu caminho”, recorda.
Ao longo das décadas, o trabalho ocupou o centro da sua vida. O empresário admite que dedicou mais tempo à profissão do que à vida familiar. Ainda assim, sente orgulho no apoio que deu à família. “Trabalhei, ganhei dinheiro e ajudei toda a minha família – os meus irmãos, as minhas irmãs – ajudei-os a todos”, sublinha. Fala disso sem arrependimento, mas com consciência do preço pago. “Tive uma vida em que me dediquei muito mais ao trabalho”.
Aos jovens, deixa uma mensagem simples e direta, construída pela experiência de uma vida inteira dedicada ao trabalho. “Diria antes de mais nada para aprenderem uma profissão, para terem um trabalho e se tornarem profissionais competentes e capazes”. Mais do que o sucesso financeiro, insiste na importância da honestidade, do respeito e do esforço: “Sempre acreditei que devemos procurar fazer melhor, dar mais de nós, tentar ir mais longe”.
Mesmo aos 81 anos, continua a trabalhar. Contudo, aprendeu a impor limites e a valorizar os momentos de descanso. “Quando vou de férias, digo sempre aos empregados para só me ligarem se houver um problema importante”, explica.
As viagens que mudaram a sua visão do mundo
Além da experiência da emigração, as viagens profissionais permitiram-lhe conhecer diferentes realidades internacionais. Joaquim Filipe passou por países como China, Brasil, México e várias nações africanas. Além disso, comunica em português, francês e espanhol, compreende italiano e muitas vezes assumiu o papel de intérprete nas deslocações profissionais.
Essas experiências deixaram marcas profundas. O empresário recorda especialmente Angola, durante o período de guerra, onde encontrou crianças órfãs a viver nas ruas. Foi nessas viagens que ganhou aquilo a que chama “uma pequena visão do mundo”. Viu riqueza, viu pobreza extrema e viu realidades que nunca esqueceu. “São imagens que nunca saem da cabeça de uma pessoa”, confessa.
Por isso, desenvolveu uma forte preocupação social e humana. “Nunca gostei de ver ninguém com fome nem ninguém doente sem ajuda”, afirma. Apesar do património que acumulou ao longo da vida, rejeita qualquer ideia de ostentação. “Hoje, considero que a maior riqueza é a saúde”, garante.
A passagem do tempo e os desafios da idade

Nos últimos anos, Joaquim Filipe enfrentou alguns problemas de saúde que alteraram a sua rotina. Depois de complicações cardíacas, contraiu Covid-19 e permaneceu hospitalizado durante quinze dias. “Pensei sinceramente que ia morrer”, recorda. Desde então, sente mais limitações físicas e maior desgaste no dia a dia. “Hoje sinto-me muito mais cansado e já não posso fazer grandes esforços”, admite.
Ainda assim, encara a velhice com serenidade. O empresário garante que não teme a morte, mas receia perder a autonomia. “O que eu não gostava era de ficar completamente dependente dos outros”, afirma. Além disso, sente hoje uma relação diferente com o tempo. “Tenho a sensação de que o tempo passa muito mais depressa”, diz.
O Algarve como sonho de futuro
Apesar de viver em França há décadas, Joaquim Filipe mantém uma forte ligação a Portugal. Em 2023 organizou uma grande festa na sua terra natal e ficou impressionado com a evolução do país. “Vi um povo educado, tranquilo, concentrado e respeitador”, destaca.
Ao olhar para o futuro, imagina uma vida mais calma no sul do país. “Gostava de viver no Algarve”, revela. O clima e o ritmo da região atraem-no particularmente. “No sul tudo parece mais tranquilo. Vejo as pessoas sem stress”, acrescenta.
No fundo, Joaquim Filipe representa uma geração de emigrantes portugueses que saiu da pobreza rural para ajudar a construir uma vida melhor no estrangeiro. Hoje, olha para o seu percurso com serenidade e sem arrependimentos. “Com 81 anos, sinceramente, não tenho razões para me queixar da vida”, conclui.



