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Portugueses de Valor 2026: Isabel Rocha

A vida de Isabel Rocha construiu-se entre duas culturas que sempre caminharam lado a lado. Nascida em Nancy, no nordeste de França, cresceu num ambiente profundamente ligado a Portugal, graças às origens da família emigrante. Dentro de casa, a língua portuguesa ocupava um lugar central e acabou por moldar a identidade que mantém até hoje.

Isabel Rocha

“As minhas recordações de infância estão profundamente enraizadas na cultura portuguesa. Em casa, os meus pais falavam sempre português e foi assim que aprendi a falar e a ler a língua”, recorda.

Ao mesmo tempo, Isabel Rocha acompanhou de perto os sacrifícios da geração emigrante portuguesa em França. Os pais trabalhavam intensamente, movidos pelo desejo de garantir estabilidade e melhores oportunidades para a família. “Os meus pais trabalhavam muito, como tantos emigrantes daquela geração que foi para França com o objetivo de juntar dinheiro, construir uma casa em Portugal e proporcionar uma vida melhor à família”, sublinha.

Contudo, aos 9 anos, a família decidiu regressar definitivamente a Portugal. A mudança trouxe desafios imediatos, sobretudo no percurso escolar. Na ausência de equivalências entre os sistemas de ensino francês e português, Isabel Rocha viu-se obrigada a reiniciar parte da escolaridade.

“Tive de entrar para a segunda classe apesar da minha idade”, explica. Durante a adolescência, sentiu frequentemente a necessidade de justificar o percurso entre dois países, numa altura em que poucos compreendiam essa realidade migratória.

Apesar das dificuldades de adaptação, guarda memórias felizes dessa fase da juventude. “Aproveitei muito os amigos, a escola e todo o ambiente à minha volta”, recorda.

Uma vida estável que mudou de direção

Mais tarde, Isabel Rocha concluiu o 12.º ano na área de Recursos Humanos. Pouco depois, o amor acabou por redefinir o rumo da sua vida. “Acabei o 12.º ano em junho e em agosto casei. Foi o meu primeiro amor, um amor à primeira vista”, conta.

Depois do casamento, regressou a França com o marido e construiu uma carreira sólida ligada aos recursos humanos e ao direito do trabalho. Durante vários anos, essa realidade profissional ocupou o centro da sua vida. No entanto, em 2018, um acontecimento pessoal doloroso alterou profundamente a forma como passou a olhar o mundo.

A perda de uma pessoa muito próxima levou-a a questionar o sentido da vida e despertou uma procura interior que nunca antes tinha imaginado seguir. “Foi a porta que abri para um novo universo”, afirma.

A partir desse momento, Isabel Rocha iniciou formação em várias áreas das terapias alternativas, nomeadamente Reiki, Ho’oponopono, leitura de registos akáshicos e massagens terapêuticas. Esse percurso acabaria por dar origem, em 2023, ao projeto Gaia de Qi.

Gaia de Qi: equilíbrio entre corpo, mente e energia

O nome do projeto reflete a filosofia que hoje orienta Isabel Rocha. Gaia representa a Terra e a ligação à natureza, enquanto Qi simboliza a energia vital na tradição chinesa. A união dos dois conceitos traduz uma abordagem centrada no equilíbrio entre corpo, mente e energia.

Curiosamente, Isabel Rocha garante que nada fazia prever esta mudança radical de vida. “Se me dissesse há 20 ou 25 anos: ‘Isabel, tem algum dom, percebe alguma coisa de terapia?’, eu diria que não. Era uma pessoa normal, casei, tive casa, tive filhos, tinha o meu trabalho”, admite.

Atualmente, as terapias alternativas ocupam uma parte importante do seu quotidiano profissional e aproximam-na cada vez mais da comunidade portuguesa em França. “Eu diria que entre 30% e 40% dos meus clientes são portugueses e que muitos já se viraram para as terapias alternativas”, explica.

Além disso, Isabel Rocha acredita que existe uma mudança gradual de mentalidades. “Há uma abertura de espírito crescente”, acrescenta.

A ligação permanente à comunidade portuguesa

Apesar do percurso construído entre dois países, Isabel Rocha mantém uma ligação profunda às raízes portuguesas. A participação em eventos e encontros da diáspora continua a ocupar um lugar importante na sua vida, não apenas como forma de convívio, mas também de preservação cultural. “Adoro a comunidade portuguesa e a minha relação com ela é muito próxima”, afirma.

A língua portuguesa continua igualmente no centro dessa ligação emocional. “A minha satisfação é poder falar com pessoas em português. Isso dá-me uma enorme satisfação”, sublinha.

Essa preocupação estendeu-se também à educação das filhas. Para Isabel Rocha, transmitir a língua portuguesa às novas gerações sempre representou uma prioridade familiar. “Era muito importante que as nossas filhas soubessem falar português”, refere.

Hoje, os sonhos passam sobretudo pelo crescimento do Gaia de Qi, mas sempre com bases sólidas. “Como somos enquanto povo português: como uma árvore bem enraizada, mas com um micélio forte, quero um crescimento sólido, profundo e com força para o Gaia de Qi”, conclui.

Patriotismo vivido no dia a dia

O patriotismo de Isabel Rocha vai muito além da língua ou das tradições. Para a terapeuta luso-francesa, ser portuguesa representa uma forma de estar na vida, marcada pela coragem, pela capacidade de adaptação e pela resiliência.

“Para mim ser portuguesa é levar a resiliência e a coragem aos quatro cantos do mundo porque é o que nos define. Somos um povo que tem muita resiliência e muita coragem e somos capaz de nos abrir a outras dimensões e à atualidade do mundo”, afirma.

Uma visão que resume o próprio percurso de Isabel Rocha: entre raízes e transformação, entre a herança cultural portuguesa e a construção de um caminho profundamente pessoal.

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