Domingo, Julho 19, 2026
InícioArtigos LusopressMónica Lisboa: “Levo cada pessoa comigo na minha mala dos tesouros”

Mónica Lisboa: “Levo cada pessoa comigo na minha mala dos tesouros”

Depois de quase dois anos à frente do Consulado-Geral de Portugal em Paris, Mónica Lisboa encerra uma missão marcada pela proximidade à comunidade e pela intensidade do trabalho consular numa das maiores comunidades portuguesas no estrangeiro.

Mónica Lisboa

Primeira mulher a assumir o cargo de cônsul-geral em Paris, a diplomata destacou à LusoPress a dimensão humana da experiência e garantiu que sai com a sensação de dever cumprido. “Foram quase dois anos que podem parecer pouco tempo, mas quando se vive cada dia com intensidade tornam-se uma experiência extraordinária”, afirmou.

Mónica Lisboa sublinhou várias vezes a importância do contacto direto com os portugueses emigrados em França. Mais do que uma função administrativa, descreveu o consulado como um espaço de escuta, acompanhamento e presença constante junto da comunidade.

“Vim para Paris com uma visão muito clara de serviço público e com a vontade de consolidar aquilo que considero essencial: uma política de proximidade”, explicou. “Para mim, essa política significa estar com as pessoas, ouvi-las e dialogar constantemente com a comunidade.”

A primeira mulher no consulado de Paris

A nomeação para Paris representou também um momento simbólico na diplomacia portuguesa. Pela primeira vez, uma mulher liderou o consulado português na capital francesa. Ainda assim, Mónica Lisboa garantiu que nunca sentiu resistência pelo facto de ocupar esse lugar.

“Foi, antes de mais, uma grande honra”, afirmou. “Ser a primeira mulher não trouxe dificuldades. Pelo contrário, senti um enorme acolhimento por parte da comunidade portuguesa.”

A diplomata considerou à LusoPress que essa identificação surgiu de forma natural, sobretudo numa comunidade onde muitas mulheres assumem papéis centrais nas famílias, nas associações e no tecido empresarial. Além disso, destacou que a presença simultânea de uma cônsul-geral e de uma cônsul-geral adjunta introduziu uma dinâmica diferente no funcionamento interno do consulado.

Grande entrevista: Mónica Lisboa – Cônsul-geral de Portugal em Paris (parte 1)

Modernização e falta de recursos humanos

Quando chegou a Paris, o consulado ainda enfrentava consequências diretas da pandemia. Os atrasos acumulados nos atendimentos e a pressão sobre os serviços consulares exigiam respostas rápidas. Segundo Mónica Lisboa, uma das prioridades passou pela reorganização interna e pela modernização tecnológica.

“Nos últimos dois anos, todos os equipamentos informáticos foram substituídos”, revelou. “Cada funcionário passou a dispor do seu próprio computador portátil, o que permitiu realizar vários atos consulares com maior mobilidade.”

Além da renovação tecnológica, o edifício beneficiou de melhorias ao nível das ligações de internet e de intervenções de manutenção. Contudo, apesar desses avanços, a responsável admitiu que os recursos humanos continuam a representar o maior desafio. “O consulado perdeu alguns funcionários que concorreram para outros postos consulares no mundo. O problema é que essas mobilidades não têm substituição automática.”

Ainda assim, garantiu que o Ministério dos Negócios Estrangeiros acompanha a situação e procura soluções para reforçar as equipas numa estrutura considerada estratégica pela dimensão da comunidade portuguesa em França.

Participação cívica continua a preocupar

A elevada abstenção eleitoral entre os portugueses residentes no estrangeiro continua igualmente a preocupar a diplomata. Apesar de reconhecer um aumento da participação presencial nas últimas eleições presidenciais, Mónica Lisboa considerou que persistem obstáculos estruturais.

“Muitos cidadãos têm de percorrer grandes distâncias para votar presencialmente.” Por isso, admitiu que o futuro poderá passar pela criação de novos postos de voto ou pela desmaterialização dos cadernos eleitorais.

Ao mesmo tempo, insistiu na necessidade de reforçar a literacia democrática junto das comunidades emigrantes. “Não basta ter o direito de voto; é importante saber exercê-lo plenamente e compreender a importância da participação cívica.”

Questionada sobre o crescimento da votação no Chega entre os portugueses em França, a diplomata evitou leituras partidárias e enquadrou o fenómeno no contexto social e político vivido atualmente em França e na Europa. “Tenho um enorme respeito pelas regras democráticas e pelo direito de cada eleitor fazer a sua escolha de forma livre e secreta.”

Grande entrevista: Mónica Lisboa – Cônsul-geral de Portugal em Paris (parte 2)

O lado humano de uma missão diplomática

Apesar dos desafios administrativos e políticos, é na dimensão humana que Mónica Lisboa concentrou as memórias mais marcantes desta etapa. Ao longo da missão, participou em eventos associativos, encontros culturais, iniciativas solidárias e atividades académicas ligadas à língua portuguesa.

A Festa Franco-Portuguesa de Pontault-Combault, as iniciativas da Santa Casa da Misericórdia de Paris ou os encontros da Academia do Bacalhau surgem entre os muitos momentos que guarda da comunidade portuguesa em França. No entanto, preferiu não destacar apenas um episódio. “Percebi cedo que não existe diferença essencial entre estar com cinco pessoas ou com milhares”, confessou. “Em todos os contextos há sempre algo a aprender e algo a partilhar.”

É precisamente dessa diversidade que disse sair mais enriquecida. “Da comunidade, levo cada pessoa comigo. Levo histórias de coragem, de superação e de formas muito diversas de estar na vida.”

A imagem da “mala dos tesouros”, usada várias vezes, resume aquilo que considerou ser a principal herança desta missão diplomática. “É uma comunidade com muitos rostos, muitas vozes e múltiplas formas de expressão, que levo comigo na minha mala dos tesouros.”

Um novo desafio em Bruxelas

Depois de Paris, o próximo destino será Bruxelas. Mónica Lisboa vai assumir funções na Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia, como representante permanente adjunta. A diplomata encara esta nova etapa como uma continuação natural do trabalho desenvolvido junto da comunidade portuguesa em França. “É uma continuidade do mesmo princípio: trabalhar para que as políticas públicas tenham um impacto concreto na vida das pessoas”, sublinhou.

Antes da despedida, deixou ainda uma mensagem dirigida aos emigrantes portugueses: “Ser migrante implica uma enorme responsabilidade. Sejam portadores da mensagem de um país que vos quer bem.”

A versão integral da Grande Entrevista com Mónica Lisboa será publicada na próxima edição de verão da LusoPress.

ARTIGOS RELACIONADOS

Artigos Populares