O Centro Português de Formação Cultural (CPFC), em Le Raincy, iniciou mais um ano letivo no dia 19 de setembro. No entanto, o regresso às aulas vai muito além da rotina escolar. Numa associação criada em 1972, o ensino do português acompanha várias gerações e revela uma mudança importante: embora muitas famílias continuem a valorizar a língua, nem sempre a falam diariamente em casa.

A LusoPress esteve no regresso às aulas e ouviu a direção, professoras, alunos, pais e antigos estudantes para perceber que lugar ocupa hoje o português numa comunidade portuguesa com décadas de presença em França.
270 alunos e diferentes razões para aprender português
Atualmente, o CPFC recebe cerca de 270 alunos, desde o 1.º ao 12.º ano, além de adultos entre os 16 e os 78 anos. Desde 2022, o número de estudantes mantém-se relativamente estável, entre os 270 e os 280 por ano.
Cristina Rodrigues, presidente do CPFC há 20 anos e ligada à associação há cerca de 35, explica que a procura recuperou depois da quebra provocada pela pandemia.
Entre os adultos, as motivações são muito diferentes. Há filhos de emigrantes que cresceram sem dominar suficientemente bem o português e que, aos 25 ou 30 anos, decidem recuperar a língua. Há também franceses casados com portugueses que querem acompanhar as conversas durante as visitas familiares. Outros procuram simplesmente aprender uma língua nova. Além disso, existem franceses sem qualquer ligação familiar a Portugal que escolhem o português por interesse cultural ou porque consideram a língua bonita.
Nos pequenos grupos, com cerca de dez alunos, as diferenças de idade não impedem a aprendizagem. Pelo contrário, Cristina Rodrigues considera que a motivação comum aproxima os estudantes. “Estão ali para aprender e, por isso, cada um acaba por ajudar o outro”, explica.
O português continua valorizado, mas nem sempre chega a casa
Entre crianças e adolescentes, o cenário revela uma realidade diferente. Muitos alunos continuam ligados à língua portuguesa, mas nem todos a utilizam com os pais.
Anabela Bastos, professora de 6.º, 10.º, 11.º e 12.º anos, encontra alunos com níveis muito distintos. Alguns falam português com a família, sobretudo com os avós. Outros quase não contactam com a língua fora da escola.
Numa das suas turmas, apenas dois dos 20 alunos falavam português com os pais. Ainda assim, a professora identifica uma vontade clara de preservar a língua e a cultura portuguesas. Assim, enquanto a primeira geração trouxe o português consigo e a segunda cresceu entre duas línguas, parte da terceira geração já não utiliza a língua diariamente em casa. Nesse contexto, os avós assumem frequentemente um papel importante na transmissão do português.
Pais reconhecem que poderiam ter transmitido mais
Céline Pereira conhece esta realidade de forma particularmente próxima. Antiga aluna do CPFC, hoje acompanha a filha, que frequenta o 5.º ano. A escolha da escola representa também uma forma de compensar a falta de português no quotidiano familiar. “Infelizmente, em casa não falamos português”, admite.
Céline recorda ainda que, quando era criança, falava português, mas não sabia escrever e tinha conhecimentos limitados sobre a história e a cultura portuguesas. O CPFC ajudou-a a aprofundar esses conhecimentos, que continuam a ser úteis no trabalho e nas viagens a Portugal.
Cristina das Neves, também antiga aluna e mãe de uma estudante, partilha uma reflexão semelhante. Para ela, o português “devia ter mais” espaço dentro de casa. Casada com um francês, reconhece que transmitiu à filha apenas algumas palavras e expressões.
Por isso, considera importante que as crianças aprendam não apenas a falar, mas também a ler e escrever. A língua pode, além disso, abrir portas para conhecer melhor a cultura portuguesa e até trabalhar em Portugal.
Avós, família e Portugal mantêm a ligação
Entre os alunos mais novos, a utilidade do português surge de forma muito concreta. Louis, do 3.º ano, gosta de aprender vocabulário e melhorar a leitura. Em Portugal, utiliza a língua para falar com a bisavó, que não fala francês.
Mathilde, também do 3.º ano, quer aprender a falar e escrever português para conseguir comunicar quando está em Portugal. Já Eva, aluna do 8.º ano e estudante do CPFC desde o 1.º ano, sente-se hoje mais confiante para falar e escrever. Nas férias, utiliza o português com os primos e outros familiares.
Uma escola que adapta os métodos às novas gerações
O ensino também mudou. Cécile Pereira, professora do 1.º ano há mais de 20 anos e antiga aluna do CPFC, acompanhou essa transformação. Hoje, os professores recorrem mais a textos curtos, excertos, atividades orais, canções, poemas, manuais e recursos audiovisuais. A mudança resulta, sobretudo, das características dos alunos atuais. “Se já existe dificuldade em ler uma obra integral em francês, fazê-lo em português pode ser ainda mais exigente”, explica.
Anabela Bastos trabalha, por sua vez, a oralidade, a compreensão, a produção oral e escrita, a gramática, a pronúncia e a leitura. Contudo, a diversidade dos níveis constitui um desafio permanente. Para a professora, uma das maiores recompensas acontece quando os alunos mais tímidos ganham confiança e começam a falar sem medo de errar.
Da língua falada à certificação
O CPFC procura ainda garantir que o português ultrapasse a dimensão familiar. A associação prepara os alunos para a certificação de português do Camões e incentiva a realização dos exames no final de diferentes ciclos.
Cristina Rodrigues destaca os resultados alcançados por alguns estudantes, que chegam a obter níveis como B2 ou C1. O objetivo passa, assim, por garantir que o português não fique limitado às conversas em família ou às férias em Portugal, mas que os alunos consigam também ler, escrever e utilizar a língua com um nível reconhecido.
Uma associação entre tradição e futuro
Com oito professoras, o CPFC mantém a atividade através das propinas pagas pelas famílias. A associação não recebe apoios financeiros e assume essa autonomia como parte da sua identidade. Ao mesmo tempo, a direção gostaria de desenvolver mais atividades culturais, como espetáculos de teatro e concertos. Contudo, a falta de instalações adequadas em Le Raincy limita essas iniciativas.
Desde 1972, o CPFC acompanha a evolução da comunidade portuguesa em França. Cristina Rodrigues chegou à associação como aluna, tornou-se professora e, posteriormente, vice-presidente, antes de assumir a presidência. Hoje, perante uma terceira geração, identifica uma nova realidade: existe orgulho numa dupla pertença e numa dupla língua.
Para João Cristóvão, pai de alunos e antigo estudante, aprender português faz parte da educação transmitida pelos pais, mesmo quando a língua não entra diariamente nas conversas familiares.
No final, a questão permanece simples, mas decisiva: como garantir que a próxima geração continue a querer falar português? No CPFC, a resposta passa pelas aulas, pela família, pelos avós, pelas viagens a Portugal e pela própria vontade dos alunos. Afinal, como recorda Cristina Rodrigues através de uma frase que marcou a sua formação no CPFC, “A cultura, o saber não ocupa lugar”.



