A Embaixada de Portugal em França acolheu, no passado dia 18 de maio, um recital de piano de João Costa Ferreira, integrado no ciclo cultural Musicorama. O concerto, intitulado “Em dó sustenido menor – Uma flor entre dois abismos”, marcou o encerramento da temporada 2025-2026 desta iniciativa dedicada à música erudita, que desde setembro do ano passado tem transformado a representação diplomática portuguesa em Paris num espaço regular de concertos.

Perante uma sala cheia, o pianista português e também diretor da Maison du Portugal – André de Gouveia apresentou um programa centrado numa única tonalidade — dó sustenido menor — numa aposta artística pouco comum. Ao longo da noite, o público ouviu obras de compositores como Ludwig van Beethoven, Frédéric Chopin, Sergei Rachmaninov e Alexander Scriabin.
Um concerto marcado pelo simbolismo
Além de encerrar a temporada do Musicorama, o recital assumiu um significado especial para João Costa Ferreira. Apesar de viver em Paris há mais de duas décadas, esta foi a primeira vez que atuou na Embaixada de Portugal em França.
“É uma enorme felicidade tocar na Embaixada de Portugal pelo simbolismo, por eu ser português obviamente, e por ser a embaixada que está em Paris, na cidade onde eu vivo já há 21 anos”, afirmou o pianista à LusoPress.
O músico destacou ainda o ambiente vivido durante o concerto e a ligação criada com o público presente. “Foi um grande prazer tocar neste salão belíssimo, com sala cheia. Houve um calor imenso que se transmitiu enquanto eu tocava”, acrescentou.
A aposta numa única tonalidade
Ao contrário do que acontece na maioria dos recitais de piano, João Costa Ferreira decidiu construir todo o programa em torno da mesma tonalidade. Segundo explicou, essa escolha representou um desafio artístico e interpretativo.
“Normalmente num concerto procura-se contraste, mudando a tonalidade entre as obras. O que eu fiz foi exatamente o contrário. É sempre a mesma tonalidade, ou seja, sempre a mesma cor”, explicou.
Ainda assim, o pianista acredita que o conceito resultou junto do público parisiense. “E creio que funcionou. O público, em todo o caso, manifestou muito agrado”, sublinhou.
Na apresentação do recital, João Costa Ferreira descreveu o dó sustenido menor como uma tonalidade associada à profundidade emocional, ao mistério e ao imaginário romântico do século XIX. O pianista evocou também a ideia de “abismo”, frequentemente associada por Franz Liszt à célebre “Sonata ao Luar”, de Beethoven.
Sala cheia e forte ligação ao público
A adesão do público acabou por marcar a atmosfera da noite. Para João Costa Ferreira, a presença de uma sala cheia influenciou diretamente a energia do concerto e a própria interpretação musical.
“Quando uma sala está cheia há uma energia que me move e que, acho eu, me inspira também nas minhas interpretações”, afirmou.
O pianista elogiou igualmente as condições acústicas da Embaixada e a qualidade do instrumento utilizado durante o recital.
“A sala tem uma excelente acústica e o piano Steinway & Sons é também muito bom”, declarou. “As pessoas que estavam ao fundo ouviam perfeitamente a música. Portanto, eram condições ótimas para este recital: acústica, piano e casa cheia.”
Musicorama aproxima diplomacia e cultura
Criado pela Embaixada de Portugal em França em parceria com o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, o ciclo Musicorama nasceu com o objetivo de aproximar o público da diplomacia cultural portuguesa e promover a música erudita europeia, portuguesa, francesa e brasileira.
Sob direção artística do pianista Bruno Belthoise, a iniciativa apresentou dez concertos ao longo da temporada, com especial destaque para o piano.
Apesar do encerramento do formato mensal, a programação termina a 21 de junho, no âmbito da Festa da Música, com vários concertos previstos ao longo do dia na Embaixada de Portugal em Paris.
Para João Costa Ferreira, terminar esta temporada do Musicorama representou também um momento simbólico. “É uma honra encerrar este ciclo. Acho que é um marco simbólico”, afirmou. “Espero que se repita no próximo ano, porque abrir as portas à comunidade portuguesa creio que é importante.”



