O espetáculo “Souvenir”, de Tiago Cadete, estreia-se na sexta-feira no Teatro-Cine de Torres Vedras, onde foi o vencedor de 2025 da bolsa de criação em artes performativas deste município.

“É mais um trabalho sobre migração, mas desta vez um bocadinho diferente. Tinha sempre feito trabalhos em que a ideia de Brasil, as relações de Portugal e Brasil eram muito mais fortes, porque fui migrante durante quase 10 anos no Brasil. Mas, desta vez, abordo a migração da minha família paterna para França”, contou o artista à agência Lusa.
O criador admitiu tratar-se de um espetáculo “muito autoral e autobiográfico”, influenciado pela sua condição de migrante.
Da história familiar à memória coletiva
Neste espetáculo, a história familiar do artista serve de ponto de partida para uma reflexão mais ampla sobre a história da migração portuguesa para França, na segunda metade do século XX, daí a escolha do título, “Souvenir”.
O criador pretende criar o efeito “bola de espelhos”, levando o público a refletir sobre o tema atual da migração, procurando criar empatia e colocando-o a trocar experiências culturais.
“Como migrante, aquilo que sinto é que temos muito mais a ganhar no sentido cultural”, rematou.
O artista apresenta um espetáculo multidisciplinar, o que “acontece muito naturalmente por ter tido uma formação em teatro, mas também em dança, em artes visuais”.
Neste espetáculo, começa por “fazer uma espécie de sondagem com o público, perguntando quem da plateia tem familiares ou pessoas mais relacionadas com eles que migraram para saber se esse mito de que todos os portugueses têm alguém na família que migrou é verdade ou não”, adiantou.
Testemunhos reais dão origem a arquivo digital
O projeto integra a criação de um ‘podcast’-arquivo, construído a partir de 25 testemunhos de migrantes portugueses em França, recolhidos de norte a sul do país, publicados em diversas plataformas digitais, assim como muito vídeo e uma performance em palco.
“Consigo com o vídeo criar uma espécie de documentário/ficção que só o vídeo e a edição permitem. Tenho atores que entram no vídeo, em cena seria muito difícil criar uma certa ficção que eu crio no vídeo, portanto o meio aqui opera mesmo na dramaturgia do trabalho”, justificou o criador.
Digressão passa por vários pontos do país
Apesar de se apresentar sozinho em palco, Tiago Cadete faz-se acompanhar por uma equipa composta por mais de 20 pessoas, com tarefas desde apoio à dramaturgia, voz-off, câmara e assistente de câmara, técnicos de som e figurinos.
O espetáculo segue em digressão pela Moita (Fórum Cultural José Manuel Figueiredo,15 e 16 de maio), Lisboa (Temps d’Images – Teatro Ibérico 28 e 29 de maio). Em Torres Vedras repete no sábado.
Para o projeto, Tiago Cadete recebeu apoio da Direção-Geral das Artes e de várias residências artísticas que realizou pelo país, desde Torres Vedras, Porto, Montemor-o-Novo, Moita e Coimbra.



