InícioArtigos LusopressExposição “Enfin chez soi?”: onde começa e termina a nossa casa?

Exposição “Enfin chez soi?”: onde começa e termina a nossa casa?

Entre memórias, migrações e identidades, a exposição “Enfin chez soi? Identidades, migrações e narrativas de pertença” questiona o significado de estar em casa e propõe uma reflexão sobre a possibilidade de termos mais do que uma casa ao longo da vida.

Patente na Maison du Portugal – André de Gouveia, em Paris, até 20 de setembro, a exposição reúne trabalhos de Ana Isabel Freitas, Carlota Matos e Carlota Sandoval Lizarralde, bem como dos alunos do Atelier des Noctambules, dirigido por Nathalie Afonso. Através de fotografia, pintura e vídeo, o projeto cruza experiências pessoais com questões de identidade e pertença.

Uma pergunta sem resposta

Para as curadoras Aïcha Lopes e Liliana Tavares Ribeiro, a ideia nasceu das suas próprias histórias familiares. “Somos ambas as filhas mais velhas das nossas famílias e os nossos pais são emigrantes”, explica Aïcha Lopes.

Além disso, a relação com a língua portuguesa assume um papel importante, embora a exposição não se limite à comunidade portuguesa. “Não pretendemos necessariamente centrar-nos na comunidade portuguesa enquanto tal, mas sobretudo na língua e no contributo que esta teve”, esclarece.

Por sua vez, Liliana descreve o projeto como um processo gradual: “Esta exposição nasceu de uma conversa entre mim e a Aïcha e foi crescendo pouco a pouco, através das conversas com as artistas e com as pessoas que se foram envolvendo neste projeto.”

O próprio título resume a principal questão. Afinal, o que significa estar em casa? “Não queremos dar uma resposta certa”, afirma Liliana. Aïcha acrescenta que o objetivo é permitir que cada visitante “pare, respire, questione-se e reflita sobre o que significa ‘estar em casa’”.

Entre raízes e novas geografias

Nas obras apresentadas, a casa ultrapassa frequentemente o espaço físico. Pode representar uma língua, uma memória, uma relação ou uma história familiar.

Ana Isabel Freitas recupera, por exemplo, imagens de São Martinho de Anta, a sua terra natal, na série Para a minha terra natal. Para a artista, o sentimento de pertença também pode nascer de encontros inesperados. “Podemos viver num determinado lugar toda a nossa vida e, ainda assim, não nos sentirmos em casa.”

Já Carlota Matos, que emigrou há 11 anos, identifica-se com essa sensação de estar entre mundos. “Como muitas pessoas, sinto que nunca nos sentimos completamente em casa, nem numa cultura nem noutra. Estamos entre culturas”, conta.

A artista apresenta ainda uma instalação de vídeo baseada na memória familiar e na transmissão entre gerações. “É uma técnica muito interessante neste contexto, porque permite quase ouvir a história da mãe através da filha”, explica.

Podemos ter várias casas?

A exposição aponta, assim, para uma ideia central: talvez a casa não tenha de ser única.

“Continuo a colecionar casas por onde passo e acabo por encontrar formas de me sentir em casa”, afirma Carlota Matos. Ana Isabel Freitas encontra também na música “um espaço de encontros e uma forma de me sentir em casa nos diferentes lugares” por onde passou.

Essa multiplicidade surge igualmente nas palavras de José Cruz, padrinho da exposição: “Posso dizer que tenho várias casas, vários ‘chez moi’”.

Por fim, os trabalhos dos alunos do Atelier des Noctambules acrescentam uma dimensão coletiva à exposição. Cada participante pintou um quadrado azul de 20 por 20 centímetros, inspirado no azulejo, e colocou nele uma parte da sua história. “É emocionante ver que cada pessoa colocou uma parte da sua alma no quadro”, afirma Nathalie Afonso.

As obras serão vendidas e as receitas revertem para a Soleils de Paris, associação que apoia pessoas sem um lugar a que possam chamar casa.

No fundo, “Enfin chez soi?” não procura definir a casa. Pelo contrário, convida cada visitante a descobrir onde começa – e onde termina – o seu próprio sentimento de pertença.

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