O investigador português Raul Leal Gaião lançou na quinta-feira um novo dicionário do crioulo de Macau, o patuá, que está “gravemente ameaçado de extinção”, segundo a Organização da ONU para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

Embora o patuá “já não seja exatamente uma língua viva”, Gaião disse esperar que a obra “desperte o interesse pela língua para que continue a ser estudada e compreendida, sobretudo pela nova geração de macaenses”.
O académico recordou que o patuá foi criado ao longo dos últimos 400 anos no seio dos macaenses, uma comunidade euro-asiática composta sobretudo por lusodescendentes e com raízes no território.
“Papiá Nôsso Língu, Dicionário de Patuá di Macau” foi publicado com o apoio da Universidade de Macau e apresentado no início do 2.º Fórum Internacional das Línguas Chinesa e Portuguesa, a decorrer na região.
Gaião disse que os três volumes representam uma extensão de um primeiro dicionário, lançado em 2019, então apenas a partir de um levantamento dos escritos de José dos Santos Ferreira.
Mais conhecido por Adé (1919-1993), escreveu poesia, novelas e teatro em patuá e é considerado um dos expoentes literários dos macaenses, juntamente com o escritor Henrique de Senna Fernandes (1923-2010).
O novo dicionário integra outras fontes, sublinhou Raul Leal Gaião, incluindo o trabalho do filho de Henrique, Miguel Senna Fernandes, encenador do grupo Dóci Papiaçam, que uma vez por ano leva a palco uma peça de teatro em patuá.
As definições das expressões incluem, quando possível, uma comparação com o crioulo de Malaca, uma cidade portuária da Malásia onde, ainda hoje, vivem cerca de dois mil descendentes de portugueses, no chamado Bairro Português.
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO, na sigla em inglês) considera o patuá como “gravemente ameaçado”, o nível antes da extinção.
O patuá começou a desaparecer devido à obrigação de aprendizagem do português nas escolas, imposta pela administração portuguesa, assim como ao estigma em torno do crioulo.
“Era considerada uma língua das ‘nhonhas’ [mulheres em patuá] e das pessoas pouco instruídas”, lamentou Raul Leal Gaião.
A publicação do dicionário é “muito bom” para a língua patuá, disse a macaense Anabela Ritchie, primeira mulher a ocupar a presidência da Assembleia Legislativa de Macau (1992-1999).
“Espero que se torna uma obra de referência para os estudiosos da nossa língua”, acrescentou Ritchie, que falou em patuá durante o fórum.
A antiga professora revelou ainda que o portal Macanese Families (‘Famílias Macaenses’), que reúne informação sobre a diáspora da comunidade, pretende usar o dicionário para “registar o patuá falado”.
Apesar de não haver certeza sobre quantas pessoas dominam o crioulo, em Macau ou na diáspora, Ritchie disse que ainda tem familiares “que não aprenderam português e só falam o que restou do patuá”.
Sobre o futuro do crioulo, a macaense garantiu ser “uma otimista por natureza” e apontou para o “interesse muito grande” dos jovens em aprender patuá para participar nas peças do Dóci Papiaçam.
Fonte: Agência Lusa



