Presidenciais: Emigrantes batem recorde de votação, mas abstenção foi de 96%

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Os emigrantes portugueses votaram em número recorde na primeira volta das presidenciais de 18 de janeiro, mas a abstenção aproximou-se dos 96%, segundo dos resultados da Administração Eleitoral consultados pela agência Lusa.

MARCOS BORGA / LUSA

Na primeira volta das presidenciais em 18 de janeiro votaram 75.756 portugueses emigrados no estrangeiro, em voto presencial, dando a André Ventura (40,93%) a sua vitória mais expressiva de qualquer círculo eleitoral.

Os portugueses são chamados a votar presencialmente, pela segunda vez em meio século de democracia, numa segunda volta das presidenciais, entre 07 e 08 de fevereiro, porque nenhum dos candidatos teve mais de 50% dos votos.

Na primeira volta das presidenciais, em 18 de janeiro, o candidato António José Seguro (apoiado pelo PS) teve 1.755.563 votos (31,1%) e André Ventura (Chega) 1.327.021 votos (23,5%). Pelo caminho, ficaram nove candidatos que recolheram, no total, 2,4 milhões de votos. 

Seguro e Ventura desafiam, agora, a abstenção e “disputam”, nesta segunda volta, os mais de dois milhões de eleitores que os candidatos derrotados deixaram “à solta”. Uns mais do que outros, dado que houve candidatos a fazer o “endosso” dos seus apoios e outros não.

António José Seguro

JOSÉ COELHO/LUSA

António José Seguro, antigo líder socialista, quebrou uma década de interregno político com a candidatura presidencial, que assegura ser “sem amarras” apesar do apoio do PS quatro meses depois, posicionando-se na “esquerda moderada e moderna” após ter recusado gavetas.

Depois de mais de 10 anos afastado da vida política, Seguro decidiu avançar para as eleições presidenciais do próximo ano sem esperar pelo partido que liderou e, em 15 de junho, apresentou a sua candidatura “sem amarras”, apartidária e aberta a todos os democratas.

Só quatro meses depois é que o PS avançou para o apoio formal a esta corrida presidencial, uma proposta conjunta do presidente do PS, Carlos César e do secretário-geral do PS, que tem apelado à mobilização dos socialistas em torno desta candidatura.

Seguro junta-se assim a Mário Soares, Jorge Sampaio e Manuel Alegre como os nomes que o PS apoiou formalmente ao longo da sua história em campanhas presidenciais.

Depois de ocupar vários cargos públicos – membro do Governo, deputado ou eurodeputado, entre outros – Seguro afastou-se da vida política após a demissão de secretário-geral do PS, em setembro de 2014, na sequência da derrota das eleições primárias contra António Costa.

André Ventura

TIAGO PETINGA/LUSA

Nas legislativas após ter sido eleito deputado único, o partido de André Ventura obtém melhores resultados no estrangeiro que em Portugal, e a abstenção tem vindo a diminuir, apesar do aumento do universo de eleitores, também graças à possibilidade de voto por correspondência. 

Em 2019, quando André Ventura conseguiu chegar ao parlamento (com 1,29% dos votos e 2% no círculo de Lisboa onde foi eleito), o Chega teve 0,87% nos círculos da Europa e fora da Europa, sendo apenas o 12.º mais votado no estrangeiro. 

Tudo mudou em 2022, quando o Chega sobe para 8,02% e fica apenas atrás de PS e PSD, um ponto acima dos resultados globais, e a afluência quintuplicou. 

Em 2024, o Chega foi o mais votado – elegeu dois deputados em quatro possíveis -, com 18,3%, algumas décimas acima do global mas o suficiente para ultrapassar PS e PSD, e o número de votantes duplicou. 

Nas legislativas do ano passado, o partido de André Ventura obteve no estrangeiro 26,15% dos votos, três pontos acima do global, onde ficou em terceiro lugar no número de votos, mas mais deputados no parlamento.

Presidenciais anteriores

Só desde 2006 é que os emigrantes portugueses passaram a poder votar nas presidenciais, com voto presencial em urna nos consulados e embaixadas, e o número de potenciais votantes disparou de 187.109 inscritos nesse ano para quase dez vezes mais (1.777.019 eleitores). 

Somando todos os votos dos emigrantes nas presidenciais anteriores, foram registados 74.825 votos, abaixo dos valores atingidos nas eleições de janeiro de 2026. 

Em 2006, participaram apenas 18.840 (10% do total), em 2011, a afluência foi de 5,6% e em 2016 foi de 4,7%. 

Em 2021, as presidenciais registaram a afluência mais baixa de sempre (1,9%) e André Ventura, que foi então candidato, teve 12,55%, menos de um ponto percentual acima da média total, que o colocou então no terceiro lugar, atrás de Marcelo Rebelo de Sousa e Ana Gomes.

Na primeira volta das presidenciais deste ano, Ventura tem mais 17,4 pontos percentuais que o resultado global, enquanto António José Seguro obteve no estrangeiro menos 7,4 pontos. 

Neste círculo, os dois principais candidatos obtêm quase dois terços dos votos, com uma polarização graças à grande perda de votos de Marques Mendes e Gouveia Melo.

Na única vez que os portugueses foram chamados a votar numa segunda volta, em 1986, o país dividiu-se ao meio, entre a esquerda e a direita. Freitas do Amaral teve, na primeira volta, 2.629.597 votos (46,31%) e Mário Soares 1.443.683 votos (25,43%). 

Soares partiu em desvantagem e cresceu 1.567.073 votos para bater Freitas com 51,18%. E o candidato da direita cresceu 242.467 votos, ficando a 138.692 de Soares.