Presidenciais: Emigrantes portugueses nos EUA obrigados a viajar centenas de quilómetros para votar

344

A impossibilidade de votar por correspondência e a escassez de urnas de voto presenciais nos Estados Unidos vão impedir muitos emigrantes portugueses de votarem para eleger o próximo Presidente da República, à semelhança do que aconteceu em eleições presidenciais anteriores. 

Na Costa Oeste, os emigrantes recenseados terão de se deslocar entre sábado e domingo (17 e 18 de janeiro) ao Consulado-Geral de Portugal em São Francisco, na Califórnia, para poder exercer o direito de voto presencial, tendo de percorrer em muitos casos cerca de 600 quilómetros.

A sua jurisdição abrange 13 estados: Califórnia, Alasca, Arizona, Montana, Idaho, Wyoming, Colorado, Havai, Utah, Nevada, Washington, Oregon e Novo México, além de territórios do Guam, Samoa Americana e Ilhas da Micronésia.

Califórnia tem o maior número de residentes portugueses e luso-americanos

“Para mim falar de eleições é falar de direito ao voto, mas quando o voto presencial é um requisito das eleições presidenciais eu sinto que esse direito é quase impossível de exercer”, disse à Lusa Nuno Duarte Silva, emigrado desde 2012 em Santa Mónica. 

“Para um português que viva na área metropolitana de Los Angeles, significa uma viagem de carro de sete horas e meia até ao consulado em São Francisco. Ou então ir de avião”, disse, acrescentando que “as duas opções são dispendiosas e não estão ao alcance de qualquer um”. 

O português referiu que a distância é de cerca de 600 quilómetros e seria o equivalente a obrigar lisboetas a votar em Madrid ou algarvios a ir a uma urna de voto no Porto. 

“Idealmente deveria haver a opção do voto por correio tal como existe nas eleições parlamentares”, sugeriu Nuno Duarte Silva.

Anita Rocha, que se mudou para o sul da Califórnia há 10 anos, nunca foi votar presencialmente a São Francisco.

“Não consigo entender porque não poderia ser possível votar por correio como fizemos nas legislativas”, questionou, afirmando que “é uma viagem longa de carro e dispendiosa se for de avião”, que pode implicar marcar estadia num hotel. 

O engenheiro eletrotécnico Nelson Abreu poderá fazer a viagem para votar, mas apenas na segunda volta e aproveitando a deslocação para uma mini fuga de fim-de-semana com a mulher. 

O português chegou mesmo a pedir um orçamento para um autocarro que pudesse levar vários cidadãos ao consulado e facilitar o voto, mas o custo revelou-se demasiado elevado: cerca de 2.000 euros.  

Para Sara Ortins, que tem uma criança pequena, deslocar-se ao consulado-geral é difícil devido à distância e ao custo e a portuguesa não conta votar nesta eleição.  

“Se houver no futuro voto eletrónico, será o melhor para nós e uma opção mais plausível”, indicou. “Não havendo, não sei se vamos conseguir votar tão cedo numas presidenciais”.

Presidenciais de 2021

Nas eleições presidenciais de 2021, a abstenção entre os eleitores portugueses recenseados no estrangeiro ascendeu aos 98,12%, um valor mais elevado que nas eleições de 2016 (95,3%), o que foi atribuído ao aumento do universo devido ao recenseamento automático. 

Nos atos eleitorais anteriores para escolha do Presidente da República, desde que foi estabelecido o voto emigrante para as presidenciais, em 2001, a abstenção foi sempre superior a 90%. 

11 milhões de eleitores recenseados 

Cerca de 11 milhões de eleitores residentes em Portugal, incluindo 1.777.019 que votam no estrangeiro, estão recenseados para votar nas eleições presidenciais de domingo, em que concorrem um número recorde de candidatos (11).

São candidatos a estas eleições Gouveia e Melo, Luís Marques Mendes (apoiado pelo PSD e CDS), António Filipe (apoiado pelo PCP), Catarina Martins (Bloco de Esquerda), António José Seguro (apoiado pelo PS), o pintor Humberto Correia, o sindicalista André Pestana, Jorge Pinto (apoiado pelo Livre), Cotrim Figueiredo (apoiado pela Iniciativa Liberal), André Ventura (apoiado pelo Chega) e o músico Manuel João Vieira.