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“Ir a salto” retrata emigração clandestina dos anos 1960

A peça de teatro “Ir a Salto” retrata histórias reais da emigração clandestina. Mas também de quem foi enganado e deixado na aldeia transmontana de França.

“É uma história de enganos”

Fábio Timor, diretor artístico da Urze Teatro

“Há uma coincidência com um objetivo que, na altura, as pessoas tinham de emigrar para França e nós temos uma aldeia, em Bragança, com o mesmo nome. A história é por aqui”, revelou Fábio Timor, diretor artístico da Urze Teatro.

“Ir a salto” retrata emigração clandestina dos anos 1960

O projeto “Ir a salto” desenvolvido por aquela companhia insere-se no programa das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril.

A peça faz uma viagem ao passado. Primordialmente, a um período em que ‘a salto’ muitos emigrantes conseguiram transpor clandestinamente as fronteiras portuguesas. Mas, por outro lado, também muitos foram enganados. E, logo depois, deixados à sorte por agiotas na aldeia de França, no concelho de Bragança.

“O desafio da Urze foi de pegar precisamente no tema da emigração frustrada. Ou seja, pensar que se estava a chegar a França e, afinal, estava a chegar a Bragança. O tema obrigou-me a refletir. Como foi possível, em 1968, enganar tão facilmente as pessoas”.

A justificação provável é, segundo o próprio, o grau elevado de analfabetismo. Nesse tempo, cerca de 30% da população não sabia ler ou escrever, sobretudo as mulheres.

“Este lado ingénuo do espetáculo, leve quase, agrada-me muito”, referiu o dramaturgo e encenador José Carretas.

A história é trágica, um drama, mas é pintada com humor.

Emigração clandestina dos anos 1960

Os protagonistas são o Francisco e a Aurora. Nos anos 60 do século passado, procuram uma vida melhor e arriscam a emigração. Contaram com a ajuda de passadores, mas acabaram a viagem na aldeia transmontana de França.

Para a construção do projeto, foram recolhidos testemunhos de protagonistas e descendentes do acontecimento da emigração ‘a salto’. Relatos a incluir num documento cinematográfico a realizar pelo videasta José Miguel Pires.

Fábio Timor disse que, apesar da idade já avançada, foi possível recolher depoimentos de emigrantes e também de passadores.

“Não estamos a retratar uma história específica. É um imaginário, validado por várias histórias”.

Emigração forçada pelas dificuldades socioeconómicas

Entre 1960 e 1969, cerca de 640 mil portugueses emigraram, 20 a 25% dos quais de forma clandestina.

Porque emigrar “não foi, nem é fácil”, a peça faz, segundo realçou Fábio Timor, uma homenagem ao emigrantes, mas alerta também a atual imigração.

“Atualmente, somos um país que acolhe. Temos uma experiência enorme sobre isso. Nesse sentido, devíamos ter uma outra forma inovadora, mais inteligente e sofisticada de acolher os imigrantes. Pelo contrário, tentamos copiar aquilo que foi mal feito”, salientou o diretor artístico.

Por fim, o trabalho de investigação foi coadjuvado pelo professor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) José Eduardo Reis.

“Ir a salto” é uma coprodução com o Teatro Municipal de Vila Real. E conta com o apoio da Comissão Comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril, da Direção-Geral das Artes e dos municípios de Vila Real e de Cinfães.

A Urze Teatro, fundada há 20 anos, criou o Teatro de Bolso em 2021, em Vila Real. Local da sede da companhia e palco para a realização de vários eventos culturais. Além disso, e no âmbito de um ciclo sobre o 25 de Abril, a Urze já produziu as peças “A teia” e “O tesouro”.

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