A reabilitação do Mercado do Bolhão, um dos edifícios mais emblemáticos do Porto, esteve em destaque em Paris, durante a apresentação do livro Mercado do Bolhão, na Embaixada de Portugal em França. A obra documenta oito anos de trabalho e apresenta uma intervenção que conciliou a preservação do património com a modernização de um espaço central na vida da cidade.
Publicado em 2024 por Nuno Miguel Borges, o livro acompanha o projeto do atelier Nuno Valentim Arquitetura, que permitiu reabrir o mercado em 2022, mantendo a sua identidade histórica e a atividade dos comerciantes.
“O Mercado do Bolhão de hoje é o mesmo de sempre, mas atualizado, modernizado e aberto a toda a gente, com condições muito melhores para todos, tanto para quem lá trabalha como para quem o visita”, afirmou Nuno Valentim à LusoPress.
Modernizar sem perder a identidade
O principal desafio da intervenção consistiu em adaptar as infraestruturas às exigências atuais, sem comprometer a autenticidade do mercado nem a ligação aos comerciantes históricos. Para o arquiteto, o projeto demonstra que a modernização não exige transformar os mercados tradicionais em grandes superfícies comerciais.
“Considero que o projeto de reabilitação do Mercado do Bolhão representa uma terceira via, um caminho de conciliação entre a necessidade de atualizar o mercado e a vontade de manter uma infraestrutura aberta a todos”, explicou.
Desta forma, o Bolhão mantém a venda de produtos frescos e as relações humanas que fazem parte da sua identidade. Além disso, a intervenção reforçou as condições de trabalho dos vendedores e criou melhores condições para receber visitantes.
O coração da cidade do Porto
Rui Moreira, atual embaixador e representante permanente de Portugal junto da OCDE e antigo presidente da Câmara Municipal do Porto, também destacou a importância do mercado para a identidade portuense.
“É o coração da cidade do Porto”, afirmou à LusoPress, sublinhando o valor do Bolhão enquanto espaço de comércio, convívio e memória coletiva.
Durante a sua presidência, entre 2013 e 2025, Rui Moreira acompanhou o processo de reabilitação, numa altura em que o futuro do edifício chegou a estar associado a propostas de demolição. Por isso, considera que a recuperação demonstra a importância de investir na preservação destes equipamentos.
“A principal lição é que, quando existem mercados municipais – e em Portugal ainda existem bastantes – vale a pena investir na sua requalificação, porque estes espaços estão profundamente ligados ao nosso sentimento de pertença”, defendeu.
O antigo autarca recordou ainda que a experiência de visitar um mercado vai muito além das compras. “As vozes que ouvimos no mercado não são as mesmas que ouvimos no supermercado. Há os pregões, os cantares, os cheiros… Por tudo isso, considero que são projetos que valem a pena”, acrescentou.
Um livro para preservar a memória
Livro Mercado do Bolhão, nas edições Nuno Miguel Borges
A apresentação em Paris deu também a conhecer o processo editorial da publicação, que reúne textos de Joana Couceiro e Luís Soares Carneiro, uma entrevista de Nuno Miguel Borges a Nuno Valentim, desenhos técnicos e 83 fotografias analógicas de André Cepeda. O atelier Macedo Cannatà assegurou o design gráfico.
Com 232 páginas e uma edição bilingue, em português e inglês, Mercado do Bolhão regista as diferentes etapas da intervenção, desde os últimos meses de funcionamento antes das obras até à reabertura.
Para Nuno Valentim, recuperar este edifício representou um privilégio profissional e pessoal. “Toda a gente tem uma história com o Mercado do Bolhão, sobretudo os habitantes do Porto. É um edifício que marca a vida da cidade, pelo que foi um enorme privilégio ter sido convidado para o recuperar”, afirmou.
Assim, a iniciativa na capital francesa levou ao debate internacional um exemplo de reabilitação que valoriza a arquitetura, preserva a memória coletiva e mantém os mercados municipais como espaços vivos nas cidades contemporâneas.