Na Adega Malápio, o vinho começa muito antes de chegar ao copo. Começa na terra, na vindima manual e nos saberes transmitidos entre gerações. Na Bairrada, o projeto recupera a produção em talhas de barro e aposta num enoturismo ligado à cultura, à gastronomia e ao património da região. Tudo isto pelas mão e visão de Romeu Martins.

Mas esta adega não procura uma produção em massa. Antes pelo contrário: valoriza as pequenas quantidades, o trabalho manual e as diferenças naturais entre cada colheita e cada garrafa. “É a mesma coisa que fazer um sapato à mão”, explica Romeu, enquanto apresenta um processo em que quase todas as etapas dependem da intervenção humana.
Das vinhas para as talhas de barro
Primeiro, a vindima decorre de forma manual. Logo em seguida, as uvas seguem em cestos, também eles artesanais, que permitem manter a fruta arejada e reduzir os danos durante o transporte. Depois, a equipa realiza o esmagamento e o desengace. O mosto passa para baldes e, posteriormente, para as talhas de barro onde decorre a fermentação.
Algumas destas talhas têm entre 200 e 300 anos. Antes de receberem o vinho, levam um revestimento feito com cera de abelha e resina de pinheiro. Esta técnica tradicional ajuda a proteger o barro e a preparar o recipiente para uma nova produção. Cada talha pode receber cerca de 750 a 800 litros, dependendo sempre da dimensão. Contudo, e por outro lado, o rendimento depende das características das uvas. Na vinha da família de Romeu, os bagos apresentam uma dimensão reduzida. Mas o vitivinicultor assegura que, apesar de produzirem menos sumo, oferecem maior concentração, estrutura e intensidade aromática. “Todos os vinhos são rústicos e gastronómicos”, explica Romeu.
O nome Malápio e a memória familiar

O nome Malápio liga-se a um topónimo da Bairrada. Contudo, também remete para uma memória familiar relacionada com maçãs. O avô de Romeu colocava maçãs no vinho branco para lhe transmitir aroma. A adega já não utiliza essa prática, mas a recordação continua associada ao projeto e à forma como o vinho atravessa gerações.
A história ilustra o universo que a Adega Malápio procura preservar. Mais do que produzir uma bebida, o projeto recupera memórias, gestos, palavras e formas de convivência ligadas à vindima.

De olhos postos no futuro, o enoturismo ocupa um lugar central na Adega Malápio. Aliás, o segmento representa cerca de 70% da estratégia do projeto. A proposta não se limita à visita à adega ou à prova de vinhos. A experiência pretende aproximar os visitantes da Bairrada, da gastronomia e do património local.
Os visitantes podem descobrir a região de bicicleta, a cavalo, de charrete ou através das bateiras tradicionais. O percurso cultural pode ainda incluir espaços como a Fundação Dionísio Pinheiro, em Águeda. Durante a vindima, o público também pode participar na apanha manual das uvas. A atividade permite conhecer o esforço exigido pelo trabalho, mas também o lado comunitário da tradição.
Historicamente, a vindima juntava famílias, vizinhos e trabalhadores. Havia comida, música, cantigas e partilha de conhecimentos. Para a Adega Malápio, estas práticas fazem parte de um património que merece continuar vivo.



