Chama-se Fernando Vaz, tem 32 anos e em Nova Iorque tratam-no por Mr. Bifana. Levou o famoso petisco português — sem adaptações — para o Time Out Market do Brooklyn e conquistou os americanos.

“É uma daquelas palavras portuguesas fáceis. Tão fácil de dizer como de agradar a quem prova. À primeira dentada, já sabem dizer bifana.”

Amor à primeira dentada
Foi tão fácil de pronunciar como de provar. “Can I have a bifana? Parece português, foi muito fácil”, conta Fernando Vaz, entre risos. “Os estrangeiros têm dificuldade em dizer ‘Cascais’. Mas ‘bifana’ é facílimo.”
Aos 32 anos, já viveu várias vidas: foi piloto, tirou gestão, comprou um tuk-tuk no fim da pandemia e trabalhou como guia turístico em Lisboa. Sempre viajou — há dois anos chegou aos cem países visitados. Foi nessas viagens que a ideia começou a ganhar forma.
“A cada viagem, encontrava cozinhas do mundo inteiro, mas cozinha tradicional portuguesa não se encontrava facilmente”, recorda. O diagnóstico repetia-se até nos Estados Unidos: “Em Newark eu consigo comer comida portuguesa, daquela de avó. Mas fora da comunidade, não há.”
Nos anos de tuk-tuk, percebeu que Portugal estava cada vez mais na moda entre os americanos. Aliás, levava turistas às Bifanas do Afonso e desafiava-os: “Prova lá isto — e agora imagina isto nos Estados Unidos.” Numa cidade que faz da sandes uma religião, faltava responder a uma pergunta óbvia: como é que ninguém se tinha lembrado de fazer isto antes?

Autenticidade como regra número um
A premissa era inegociável: nada de adaptar ao paladar americano. “Tem de representar ao máximo a autenticidade da gastronomia portuguesa. Pegar numa coisa cem por cento portuguesa, que sabe a casa, feita com produtos portugueses”, explica. “Eu não sou chef — mas as nossas avós também não eram e davam lições de cozinha a qualquer um.”
O maior desafio foi, em primeiro lugar, o pão. Passou semanas de padaria em padaria até o encontrar, por acaso, num almoço com amigos. “Provei o pão da mesa e disse logo: é isto.” Mas uma pista levou-o à Padaria dos Seabras, em Newark, hoje seu parceiro.
“Os americanos reconhecem que é especial à primeira dentada. E falam do pão, dizem que é divinal. eu explico que é como o pão da minha avó, em Portugal.”

Do pop-up ao Mundial
Tratada a papelada com a embaixada e os fornecedores, arrancou com eventos pop-up e show cooking, isto é, testar o conceito sem renda nem compromissos fixos.
“Os eventos pop-up, como aqui se chama, permitiram apresentar o produto ao mercado novo, permitiram testar o conceito, testar a operação e os fornecedores, permitiram até a identificação de uma série de erros iniciais e a sua correção, sem custos de instalação e sem compromissos fixos. Esse trabalho, sem uma renda para pagar, e tendo oportunidade de fazer todos os testes, foi muito importante para pôr as coisas a andar”, lembra Fernando, entre palavras de agradecimento a todos os que o ajudaram a começar.
O salto veio com o futebol. Um protocolo da Portugal House com a Federação Portuguesa de Futebol e o Turismo de Portugal, durante o Mundial, abriu-lhe as portas de um espaço fixo. “Começámos em Houston, depois Miami, e no fim da fase de grupos confirmou-se o Time Out Market. Cada jogo de Portugal era uma loucura para vender.”
Lugar no Time Out Market do Brooklyn

Hoje o Mr. Bifana ocupa lugar no Time Out Market do Brooklyn — o food hall inspirado no conceito nascido em Lisboa, que reúne 21 propostas gastronómicas num antigo armazém dos Empire Stores, com vista para o Rio East, a Ponte de Brooklin e o skyline de Manhattan. Entre hambúrgueres, churrasco e comida de outros países, brilha agora a nova estrela nova-iorquina: a bifana portuguesa.
A entrada no Time Out Market é gratuita e quem lá vai petiscar paga apenas o que consumir em cada estabelecimento. Os preços médios por prato variam entre os 12 e os 25 dólares.

Expandir a outras cidades? Para já, não, diz Fernando Vaz. “Agora é para ficar em Nova Iorque. Precisamos de tempo para cimentar o trabalho aqui.”
Uma coisa é certa, ficando por Manhattan ou expandindo o negócio a outros estados americanos, com o reconhecimento alcançado e a atenção de televisões, rádios, jornais e influencers famosos, este português empreendedor já pode sentir o orgulho de saber que foi ele quem ensinou os americanos e o mundo a dizer “bifana”.



