28 Oct, 2020 Última Actualização 12:15 PM, 27 Oct, 2020

Portugueses de Valor 2020: Nomeado Albino Miranda

 

Albino Miranda nasceu 1967, na freguesia de Galelos (Santa Maria), pertencente ao concelho de Barcelos. Da sua infância recorda as brincadeiras nos riachos que hoje já nem água levam, do valor dado à Primavera, que permitia ir brincar para os campos. São ainda algumas imagens e cheiros que o fazem recordar esses momentos da infância. Também em pequeno herdou a “arte” do seu pai, que tinha uma oficina de carpintaria e marcenaria. “Vi o meu pai trabalhar era eu muito pequeno, em que ainda não chegava ao banco de carpinteiro e isso marcou aquilo que sou hoje”. Albino transformou-se num homem em que o trabalho manual é a sua vocação e paixão. Começou por trabalhar com o pai, esculpindo madeira, e seguiu-se a área da cerâmica, onde desenvolveu produtos para várias empresas. “Sei que tenho milhares de produtos feitos que ainda hoje vejo e recordo que fui que os criei”. Mais tarde, Albino Miranda criou a sua própria empresa, mantendo sempre a área criativa, já que é também amante de arquitetura e decoração de interiores. A Albino Miranda Lda é uma empresa do setor decorativo, que cria e desenvolve mobiliário e esculturas para ambientes de interior e exterior através das suas marcas KARPA e GANSK. “Sempre que algo me obrigue a criar, eu estou feliz. Não sou bom a negociar, portanto nunca daria um bom negociador”.
O seu sonho, desde sempre, era casar e formar família cedo, para que mais tarde pudesse voltar a ter tempo para namorar. Também sempre quis viver da arte. “Sou um artista que acabei por criar condições para que muito mais pessoas possam ter uma peça de arte em sua casa. Não me tornei famoso, nunca o procurei, então as minhas coisas não são vendidas muito caras”. De futuro, falta-lhe concretizar um sonho que já tem alguns anos: uma exposição individual, totalmente solidária. Para si, são essenciais os valores de honestidade, respeito e sinceridade. Faz parte da Academia do Bacalhau do Minho, e o que cativou na associação foi dar com a mão direita sem mostrar a mão esquerda. “Fazer o bem sem estar a divulgar que o fizemos”. Confessa que não tem o mesmo patriotismo e o sentimento de saudade que alguém que tenha emigrado, mas gosta cada vez mais do seu país, Portugal. “Os portugueses são muito mais do que aquilo que pensam que são, temos muito mais valor do que pensamos. Temos de deixar de ter discurso de coitadinho. Damos cartas por esse mundo fora. O que desejo a todos é que sejam verdadeiros, felizes e que ocupem o seu pensamento o máximo possível em coisas positivas, e valorizar o abraço”.

Portugueses de Valor 2020: Nomeado José Lopes

 

José Lopes é uma figura incontornável da história do futsal em França. Mas até alcançar esse estatuto, teve muito sangue, suor e lágrimas. Nasceu a 7 de Maio de 1946 em Vila Nova de Gaia, altura que era o pós-II Guerra Mundial e, por isso, tempos de pobreza e muita dificuldade. José recorda-se da fome que passou, de ir à sopa popular, à Igreja e de andar de pé descalço. Seguiu-se o tempo do Salazarismo em Portugal, mas as condições na sociedade não melhoraram muito. Começou a trabalhar ainda antes dos 14 anos, sendo tipógrafo, actividade que interrompeu para cumprir o serviço militar na Guiné-Bissau, entre 1968 e 1970. Regressado a Portugal, foi-lhe negado o seu posto de trabalho na tipografia, o que revoltou José Lopes. “Estive a servir o meu país e quando cheguei negaram-me o meu local de trabalho”. Recorreu ao sindicato dos tipógrafos e, por essa ação, começou a ser perseguido pela PIDE, que nunca mais o largou. “Nunca fui revolucionário, mas como fui ao sindicato, era visto como opositor ao regime”. José Lopes teve de fugir para França, como muitos outros. Estava traçado que o desporto ia ter uma grande influência na vida de José Lopes. Foi através do futebol que entrou para uma empresa americana em França. Os seus dotes enquanto jogador conquistaram a firma para disputar o campeonato corporativo, um torneio entre empresas. “Comecei do zero, e no fim eu saí da empresa a dirigir toda a gente”. A história do Sporting Clube de Portugal começa quase por brincadeira. Um conjunto de miúdos, no 13º bairro de Paris, desafiou José Lopes a treiná-los para um torneio que estaria a começar. Só houve o tempo de comprar rapidamente 15 camisolas e colocar-lhes os números com um ferro de passar a roupa. A equipa ganhou o torneio e José Lopes decidiu montar uma equipa, recorrendo à prefeitura. Estava no ano 1982, e dava-se assim o início do Sporting Clube de Paris, uma equipa que revolucionou o futsal em França, ganhou campeonatos, taças e chegou às meias-finais da Taça da Europa. José Lopes é feliz por saber que este seu projecto tem continuidade, sendo um dos filhos treinador de futsal e um dos que tem mais títulos em França. Homem de uma grande simplicidade, José Lopes sente-se incomodado com os excessos e estragos de comida que hoje se vê no mundo, pela pobreza que já teve de passar na vida. Gosta de ajudar jovens condenados, dando-lhe uma oportunidade de trabalho colaborativo no Sporting. “Não é por uma asneira que a situação é grave, e nós aqui ajudamos esses jovens”. Tem muita vaidade em ser português, e já a tinha há 50 anos atrás, quando os portugueses eram gozados em França. É com vaidade também que mostra a sua tatuagem de “sangue, suor e lágrimas”, cravada no braço e que retrata a sua ligação à sua pátria. José Lopes recebeu um diploma do general António de Spínola e foi recentemente condecorado com a Medalha de Mérito do Governo Português, entregue pelo Secretário de Estado do Desporto.

Portugueses de Valor 2020: Nomeada Natália Rodrigues

 

Natália Marques Rodrigues nasceu em 1972, em França. É filha de pais emigrantes, por isso a emigração sempre fez parte do seu quotidiano. Recorda-se de uma infância feliz, vivida em tempos mais difíceis em que as brincadeiras eram outras, mas um tempo onde “se vivia se forma mais simples, mais descomplicada, mas talvez até mais feliz. Tenho boas recordações dos primos e da família, que é na sua maioria emigrante”. Natália formou-se na área das letras, estudando na Sorbonne, em Paris, mas o seu percurso profissional nada tem a ver com a sua formação académica. O seu pai tinha uma empresa de transportes e esse bichinho pelo mundo dos negócios e dos transportes foi crescendo. Por volta dos 20 anos começou a ajudar o pai e desde logo se apaixonou pela profissão. Hoje, é sócia, juntamente com o irmão António José Rodrigues, da Transnate, empresa de transportes sediada em Celorico da Beira. Natália e o irmão são o rosto de uma dupla que dá continuidade ao empreendimento que o pai começou em França. Natália mudou-se para Portugal, foi uma opção de vida, e tem gerido a empresa que iniciou actividade em 1998. Natália é uma mulher que impera num universo composto, maioritariamente, por homens. Não se recorda de ter tido um sonho que envolvesse um futuro para si, mas aquilo que idealizava era uma vida mais pacata, talvez sendo professora na área das letras. “Não era um sonho, mas sim uma expectativa e uma pretensão. Hoje, o meu sonho é continuar a ser quem sou e a continuar a levar este barco a bom porto”. Tanto profissionalmente como pessoalmente, há valores dos quais Natália não abdica, que são de berço e de formação. “É muito importante a seriedade, a questão de ser idónea, de cumprir e honrar os nossos compromissos. Isso é fundamental para o bom funcionamento de qualquer empresa e até para nós como ser humanos”. Ao nível solidário, Natália recorda com carinho o apoio a uma instituição de crianças desfavorecidas. Apesar de ter nascido em França, Natália assume que tem os dois lados: França e Portugal. “Gosto muito de França, mas o facto de ter vindo para cá foi uma opção e não uma obrigação. Foi uma opção de vida e se o fiz é porque de facto admiro o nosso país, mais até por uma questão cultural. Gosto das nossas gentes, gosto das pessoas acolhedoras, somos pessoas sérias, abertas e penso que esse lado me diz muito e tenho muito orgulho. Temos uma gastronomia fantástica, temos muito para mostrar ao mundo, paisagens arrebatadoras”. Natália deixa ainda uma palavra de apreço a todos os emigrantes. “Sou oriunda de França, os meus pais ainda hoje são emigrantes, parte da minha família vive em França. Tenho um respeito enorme por essas pessoas que lutaram por melhores condições de vida”.

Portugueses de Valor 2020: Nomeado Alexandre da Cunha

 

Natural de Castelo do Neiva, em Viana do Castelo, Alexandre da Cunha nasceu em 1970 e desde cedo revelou uma enorme ligação ao mar. São ainda muitas as recordações que tem das brincadeiras na praia, da apanha do sargaço com a avó, de ver os barcos a chegar do mar. “Tive uma infância sem internet e sem telemóvel, mas muito feliz, sempre com a minha mãe ao meu lado”. Filho de mãe solteira, como assim costuma dizer, com ela sempre teve grande ligação. O pai aperfilhou Alexandre da Cunha, mas logo no ano em que nasceu emigrou para França e depois para o Canadá. “Foi a minha mãe que me criou e fez o homem que sou hoje em dia”. Alexandre cedo começou a ajudar a avó nos trabalhos domésticos, fosse na agricultura ou na pesca e assim que terminou o 6º ano começou a trabalhar para ajudar a mãe financeiramente. Aí surgiu o restaurante Pedra Alta, o seu primeiro emprego com 15 anos, que conciliou durante oito anos com a pesca. “Comecei com o senhor Fagundes, o fundador do Pedra Alta, mas logo no ano seguinte apareceu o senhor Joaquim Oliveira Baptista. Trabalhava em part-time porque era também pescador profissional, tinha a carta de pescador e arranjo de pesca”. Vida de luta é a expressão que usa para caracterizar o seu caminho. Só deixou de ser pescador para cumprir a última vontade da sua mãe, antes de falecer e foi aí que se agarrou a 100% ao Pedra Alta. Tinha 22 anos e era então responsável e gerente do restaurante em Gaia, onde esteve durante seis anos. Depois surgiu a oportunidade de implementar o Pedra Alta em França e Alexandre fez as suas malas e agarrou o desafio. Em 2000 chegou a terras gaulesas e o que se viu foi um desenvolvimento enorme do Pedra Alta em Pontault-Combault, sendo hoje uma grande casa e bem reconhecida. “Contribuí muito, mas o crescimento do Pedra Alta deve-se a um grande homem, o senhor Baptista, que foi meu mentor, meu professor e também meu pai. Foi e ainda considero que é”. O inicio foi duro, mas com o desenvolvimento começaram abrir mais e mais casas. “A minha vida são 34 anos ligado ao Pedra Alta e, hoje em dia, quis fazer o meu próprio projecto. Sentia que era capaz, porque fui capaz de dar vida ao Pedra Alta em França”. Foi assim que Alexandre abriu o Mar Azul, no final de 2019. Quanto a sonhos, o que sempre desejou era uma ter uma casa bonita, pois na sua infância não teve essa oportunidade. Todos os outros bens materiais para si são hoje banais e insignificantes. Hoje o seu sonho é que todas as pessoas que trabalham consigo que possam ter os seus próprios sonhos e que os concretizem. “Eu sem os meus funcionários não sou ninguém, eu preciso deles e eles de mim”. Para si, ser português é uma honra. “Portugal foi a maior potência do mundo em 1500, somos conhecidos em todo o mundo pelos trabalhadores. Somos um pequeno país, mas uma grande nação. Estamos em todo o lado do mundo e mostramos onde estamos que sabemos fazer alguma coisa”. O que deseja a todos os portugueses é tenham muita confiança em Portugal, que lutem e mostrem o verdadeiro valor de um português quando sai do seu país. “Nós gostávamos de estar no nosso país mas, derivado a certos factores, somos obrigados a tentar uma vida melhor, mas uma vida de luta”.

Portugueses de Valor 2020: Nomeado José Manuel Fernandes

 

José Manuel Fernandes nasceu em Lisboa em 1945, mas é natural de Matosinhos, onde passou toda a sua infância. Lembra-se, da sua infância, de todo um esforço da família para sobreviver e a sua passagem pela escola primária e secundaria, onde teve a possibilidade de fazer uma paridade com o sistema que hoje as crianças estão submetidas na parte do ensino, comparar sistemas e comparar resultados. “Essa infância para mim está muito viva”. A engenharia é a base da Frezite, e é a paixão de José Manuel Fernandes, o rosto do grupo. Fez uma formação a partir da escola industria, sendo licenciado em Engenharia Mecânica pela FEUP/Universidade do Porto e bacharel em Electrotecnia e Máquinas pelo ISEP. Com 14 anos de idade, começou a trabalhar na indústria de bens de equipamento e transaccionáveis, tendo-se mais tarde especializado em áreas ligadas à produtividade, controle numérico, gestão de investimentos em ambiente CNC pela ADEPA, em França, gestão empresarial pelo CIFAG/IAPMEI. “Eu, desde novo, apercebi-me que a transformação dos materiais e as skills da indústria era a minha vocação. Sou um engenheiro nato e, sobretudo, virado para a área da produtividade. Costumo dizer muitas vezes, em conferências, que entre dois pontos só defendo a linha recta. De maneira que fazer uma curva é perder tempo, dinheiro e aumentar os custos”. José Manuel Fernandes é autor de vários artigos sobre estratégia politico-empresarial em semanários económicos, além de conferencista com múltiplas intervenções em Portugal e no estrangeiro. Em 1978 fundou a Frezite e desde 1976 que está ligado ao movimento associativo empresarial – AEP, CIP, AIMMAP, AEBA – e foi membro do CGS da EDP. É, também, membro do Conselho de Curadores da Universidade do Porto e consultor empresarial. “Ao longo da vida tentei ter um percurso permanente de aprendizagem e assumindo competências e especializações em diversas áreas da gestão, e não só, na medida em que trabalhamos sempre ligados a projectos empresariais dos bens transaccionáveis, normalmente bens de equipamento e sempre em actividades de exportação e de internacionalização da actividade económica das empresas onde trabalhamos”. Este futuro estaria reservado, porque José Manuel Fernandes sempre sonhou em liderar um projecto. “Ter desafios de fazer coisas”, era a ambição que tinha. Para si, integridade é o mais importante, assim como a sua vida possa ser um exemplo entre aquilo que diz e aquilo que faz. “Isto tem de estar sincronizado. O primeiro ato de uma boa liderança é o exemplo”. A mensagem para todos os portugueses “é que nós temos de ter orgulho pelo passado da nossa história e temos de ser portadores dessa mensagem de continuar a desbravar mundos, quer pelas nossas actividades profissionais, quer através da cultura, quer através da família, temos de o fazer onde quer que a gente esteja”.

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