28 Oct, 2020 Última Actualização 12:15 PM, 27 Oct, 2020

Portugueses de Valor 2020 - Nomeado Rui Gameiro

 

Rui Gameiro nasceu na capital portuguesa, mas foi no concelho de Pombal que viveu a sua infância. “Os meus pais são de Pombal, Santiago de Litém. Gosto muito desta terra”, confessa. Foi na zona centro de Portugal que cresceu e, por isso, nutre por este recanto um carinho especial. Entretanto, aos 14 anos, Rui muda-se para Lisboa e a sua vida muda completamente. “Trabalhava de dia e estudava de noite”, diz. Apesar do ritmo intenso, o português sentia-se enraizado nesta sua nova experiência e adaptou-se com facilidade. Poucos anos depois e por vicissitudes da vida, Rui Gameiro vê-se obrigado a mudar de país e muito por influência do irmão. “Na altura não queria sair de Portugal, mas o meu irmão insistiu para eu vir para França porque ele sentia-se sozinho”, afirma. É neste contexto que Rui parte para França e abraça assim um novo desafio. Com a ajuda do pai, o português ingressa na área da restauração e oferece os seus serviços a dois restaurantes, um francês e outro italiano. É sobretudo na base do trabalho, que empregou em solo francês, que em 1981 se aventura numa nova experiência. Em conjunto com um amigo, e ao atingir os 25 anos, decide abrir uma empresa. “A primeira empresa que criamos foi a La Fontaine, a segunda foi a empresa Cristal, que ainda hoje existe”, refere. A experiência de se tornar num empresário ganhou contornos reais e Rui abraçou quase toda a sua vida a desempenhar estas funções. Trabalhar faz parte da identidade do empresário, no entanto, um acontecimento inesperado culminou na merecida reforma. “Infelizmente tive um enfarte e foi aí que parei a minha actividade”, refere. Rui Gameiro é hoje aposentado, no entanto, apenas para a componente profissional. O empresário aproveita a vida de forma apaixonada e não esquece as suas raízes. “Tenho os meus netos em Portugal, quanto mais tempo lá passar mais perto estou deles”, confessa. Com um olhar que traduz a experiência que acumulou ao longo da vida, é com palavras sonantes que o português realça uma verdade inquebrável. “Estamos aqui de passagem e há que aproveitar a vida”, conclui.

 

Portugueses de Valor 2020 - Nomeado Carlos Fernandes

 

Tinha apenas três anos quando deixou a pequena cidade de Loulé situada no Algarve, por isso, não trouxe recordações de Portugal na bagagem e guarda apenas algumas histórias contadas pelos pais sobre esses tempos. Mais de 30 anos depois, Carlos Fernandes fala português correctamente, mas não consegue esconder o sotaque carregado de quem passou mais tempo fora do que dentro de Portugal. "O meu pai veio primeiro para Paris e só depois é que a minha mãe veio comigo. Foi uma senhora portuguesa que me deixou passar a fronteira entre Portugal e Espanha em cima de um burro", conta sorrindo, "eu não me lembro claro, mas a minha mãe explicou-me". Naquela altura as viagens ainda eram feitas a salto e apesar de Carlos Fernandes não se recordar do caminho percorrido até França, conhece as dificuldades descritas pela família e sabe que foi penoso.Em França cresceu na região de Rouen e mostrou cedo o jeito para as contas. "Sempre gostei muito de organizar as despesas porque apesar do meu pai e da minha mãe saberem ler e escrever, eu é que fazia esse trabalho em casa desde pequeno", diz-nos. Com apenas 17 anos fez contas à vida, colocou o bacharelato na mala e foi até Paris. Ainda era novo, mas começou logo a trabalhar num supermercado de produtos portugueses. Vendeu "tremoços, bacalhau, fruta" e aproximou-se das suas origens. Depois entrou no serviço de contabilidade do Grupo Printemps, mas como viu que para progredir na carreira ainda tinha que percorrer um longo caminho, decidiu acelerar o passo. Regressou às aulas, foi para a Escola Superior de Gestão e Contabilidade (ENGDE), conciliou o trabalho com os estudos, formou-se em Contabilidade e Finanças e foi um dos primeiros portugueses licenciados naquela área em Paris. "Quando me formei até fui ver se existiam outros luso-descendentes com o mesmo diploma, mas nesse momento éramos poucos. Nós não correspondíamos à imagem típica do emigrante português em França", acrescenta. Começou a trabalhar sozinho em 2007, mas dois anos depois decidiu criar o seu próprio gabinete de contabilidade. A sociedade "Amparo Conseil" foi fundada em 2009 e actualmente, para além da sede situada no centro da capital, tem também um gabinete na Normandia. Para além da contabilidade pura e dura, uma das principais funções da Amparo Conseil "é acompanhar os dirigentes das empresas". O nome "Amparo" inspirado num livro do escritor português Miguel Sousa Tavares tem a ver com isso mesmo. Carlos Fernandes quer amparar as empresas, ajudando a desenvolver e a gerir melhor os seus negócios. Em 2007 tornou-se membro da Câmara de Comércio e Indústria Franco-Portuguesa com um único objectivo. Queria passar a ser "um membro activo na comunidade de empresários portugueses" e actualmente tem "vários clientes do país". O ano de 2017 também lhe reservou uma nova aventura. Pela primeira vez viajou até às suas origens para trabalhar, investindo na mesma área através de um novo projecto que está localizado em Lisboa: a Conta Up. Carlos Fernandes é mais um exemplo de um português que viveu mais anos fora do que dentro de Portugal, mas nunca se esqueceu de regressar à terra que o viu nascer e afirma com veemência que "Portugal é um país com futuro".

 

Portugueses de Valor 2020 - Nomeado Abílio Lourenço

 

Abílio Lourenço é natural de uma aldeia de Ponte de Lima. Em 1980 emigrou para França como muitos portugueses e transformou-se num verdadeiro “homem dos 7 ofícios”. O primeiro trabalho que encontrou foi nas vindimas, mas depois seguiram-se várias profissões. Em Paris seguiu os passos de muitos emigrantes e foi parar à construção civil. Em 1981 conheceu um patrão que lhe ofereceu trabalho, legalizou-o no país e arranjou-lhe todos os papéis necessários para a sua estabilidade. Abílio lutou, procurou sempre alcançar melhores condições de vida e nunca baixou os braços. Mais tarde passou pela limpeza, ainda esteve ligado à pintura apesar de não se considerar um pintor profissional e, há 22 anos, que tem uma empresa associada à cerâmica. Pelo caminho ainda se ligou à restauração, mas fez apenas isso para ajudar um amigo. Em 2006 o primeiro patrão que teve em França enfrentava alguns problemas e desabafou com Abílio Lourenço. Apesar de não ter grandes possibilidades, o empresário sentiu que podia e devia ajudar quem também já lhe tinha estendido a mão, acabando por comprar um restaurante que ele tinha. Abílio não percebia nada de restauração e aquela não era definitivamente a sua área, mas ainda hoje diz “que por um amigo é capaz de fazer tudo” e, se voltasse atrás, garante que “faria o mesmo”. Durante o seu percurso, foi aconselhado a apostar na cerâmica e actualmente confessa que esse “foi um bom conselho” e uma aposta ganha. No início, quando começou, todos os funcionários da empresa eram portugueses, mas actualmente em 40 colaboradores, apenas um terço tem nacionalidade portuguesa. O empresário recorda que quando chegou a Paris na década 80 ser português era considerado uma mais-valia, sobretudo para encontrar trabalho. Apesar de ter uma grande admiração pelas suas origens situadas no norte de Portugal, Abílio pensa que não teria alcançado a mesma estabilidade se tivesse continuado no país. “Se Portugal oferecesse as condições que nós tivemos quando chegámos aqui, nós não precisávamos de ter vindo. Antes de mim já vinham portugueses porque o país não oferecia o mesmo que a França e, quem diz a França, diz também outros países. Eu considero que Portugal é um país fantástico, é o meu país e eu procuro falar sempre bem dele, mas infelizmente não me deu a mim, nem a milhares de portugueses aquilo que nós queríamos”, afirma. Actualmente, Abílio Lourenço ainda realiza vários investimentos em Portugal, associou-se em França a uma empresa portuguesa que vende produtos de higiene e de limpeza e recentemente abriu juntamente com três amigos um Restaurante que serve especialidades portuguesas em Ivry-sur-Seine, nos arredores de Paris, chamado “Cantinho do Lima”. Apesar de dar a conhecer Portugal através deste e de outros trabalhos, Abílio afirma que “não espera nenhum reconhecimento do país”, confessa que já ajudou várias pessoas e associações, mas também não o faz para dizer em voz alta e opta sempre pela discrição. Termina a entrevista com uma mensagem que resume bem o propósito dos Portugueses de Valor: “Em França os portugueses lutaram muito e são, como vocês dizem, pessoas de valor”.

 

Portugueses de Valor 2020 - Nomeado Albino Gonçalves

 

Emigrou para França em 1987. Deve o seu sucesso ao trabalho realizado neste país, onde os portugueses são bem vistos, têm uma boa imagem, principalmente na construção civil. Por isso, o facto de ser português tem influenciado de algum modo a sua vida. Ainda não obteve de Portugal qualquer reconhecimento pelo seu trabalho. Apesar de já ter investido no seu país, acha que neste momento prefere investir onde vive. Considera os portugueses patriotas e corajosos, apontando a inveja como o seu único defeito. Na sua empresa, a maioria dos trabalhadores são portugueses, com a excepção de dois de origem africana (Mali). Sente saudades da sua terra natal e da família. Dirigindo-se aos portugueses, acha que eles deveriam ser mais unidos e não puxar cada um «a brasa à sua sardinha».

 

Portugueses de Valor 2020 - Nomeado João Pinheiro

 

A ilha do Faial, nos Açores, viu nascer João Pinheiro, mas tem sido os Estados Unidos da América que têm presenciado a vida empresarial de sucesso deste português. Nasceu em 1942 e esteve nos Açores até aos 17 anos, altura em que se deu a erupção do Vulcão das Capelinhas, facto que o fez mudar de vida. “Na altura, o presidente John F. Kennedy instituiu uma lei especial para as pessoas afetadas pela erupção poderem emigrar para os Estados Unidos. O meu pai decidiu aceitar e viemos para aqui em 1959. A minha primeira lembrança é chegar aos Estados Unidos com a ideia de continuar os estudos, mas por norma os emigrantes não estudavam, iam logo trabalhar. Ao princípio esta ideia custou-me um bocado, mas hoje em dia sou feliz por estar onde estou e por ter duas culturas, a portuguesa e a americana”. Foi no Estado de Massachusetts que João Pinheiro se instalou e construiu o seu percurso de vida, pessoal e profissional. Começou por jogar futebol num clube semi-profissional, facto que lhe foi garantindo fazer alguns amigos e perceber como funcionava a sociedade americana. Algum tempo depois, já casado, juntamente com o seu sogro decidiu abrir uma oficina bate-chapas. Começaram apenas duas pessoas, hoje são 22 colaboradores. “Ganhámos, com muito orgulho, o prémio de melhor oficina de South Coast Massachusetts. Este projecto levou tempo a chegar ao ponto onde estamos hoje, mas conseguimos. Viemos para um país estrangeiro, e chegámos com muitas dificuldades à posição que temos hoje. Tivemos sorte de estar rodeados por pessoas que tinham conhecimentos, e nos ajudaram a dar seguimento a este projecto”. João Pinheiro é também um homem que nunca desiste dos seus sonhos e pensa não ter idade para os alcançar, independente do sonho. Impedido de continuar os estudos em jovem, foi há sensivelmente dez anos que conseguiu tirar um curso superior. “Tirei o curso por orgulho, não me serve de nada, mas eu queria ter este curso para poder realizar o meu sonho. É verdade que há 30 anos não o consegui tirar, mas isso ficou dentro de mim e por força de vontade graduei-me em Nashville”. Por isso mesmo, define-se como um homem com vontade de aprender para chegar cada vez mais longe. “Eu nunca estou satisfeito, mesmo com a idade que eu tenho estou sempre à procura de algo para melhorar e aprender. Nós temos de querer inovar e de aprender”. João Pinheiro continua fortemente envolvido na comunidade portuguesa, tendo sido o fundador do Clube União Faialense e do Azorean Maritime. Foi também fundador de duas associações de bolsas de estudo para ajudar crianças portuguesas nascidas nos Estados Unidos. “Para mim é um orgulho próprio poder ajudar quem necessita, e ajudar alguém a realizar os seus sonhos”. Admite ter um grande orgulho em ser português, açoriano e faialense. “Também tenho muito orgulho de viver nos Estados Unidos, país que me recebeu. Tenho duas culturas, mas nunca vou deixar a cultura portuguesa. Os portugueses que vivem em Portugal às vezes não têm a ideia real do que é ser emigrante, e do que é viver fora do país. Nós que vivemos aqui, sentimos mais do que muitas pessoas que vivem em Portugal. Nós vivemos Portugal, nós gostamos de Portugal e temos saudades de Portugal”.

 

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