18 Aug, 2019 Última Actualização 11:55 PM, 13 Aug, 2019

Nomeado Portugueses de Valor 2019: Carlos Fernandes

 

 
 
Tinha apenas três anos quando deixou a pequena cidade de Loulé situada no Algarve, por isso, não trouxe recordações de Portugal na bagagem e guarda apenas algumas histórias contadas pelos pais sobre esses tempos. Mais de 30 anos depois, Carlos Fernandes fala português correctamente, mas não consegue esconder o sotaque carregado de quem passou mais tempo fora do que dentro de Portugal. "O meu pai veio primeiro para Paris e só depois é que a minha mãe veio comigo. Foi uma senhora portuguesa que me deixou passar a fronteira entre Portugal e Espanha em cima de um burro", conta sorrindo, "eu não me lembro claro, mas a minha mãe explicou-me". Naquela altura as viagens ainda eram feitas a salto e apesar de Carlos Fernandes não se recordar do caminho percorrido até França, conhece as dificuldades descritas pela família e sabe que foi penoso.
 
Em França cresceu na região de Rouen e mostrou cedo o jeito para as contas. "Sempre gostei muito de organizar as despesas porque apesar do meu pai e da minha mãe saberem ler e escrever, eu é que fazia esse trabalho em casa desde pequeno", diz-nos. Com apenas 17 anos fez contas à vida, colocou o bacharelato na mala e foi até Paris. Ainda era novo, mas começou logo a trabalhar num supermercado de produtos portugueses. Vendeu "tremoços, bacalhau, fruta" e aproximou-se das suas origens. Depois entrou no serviço de contabilidade do Grupo Printemps, mas como viu que para progredir na carreira ainda tinha que percorrer um longo caminho, decidiu acelerar o passo. Regressou às aulas, foi para a Escola Superior de Gestão e Contabilidade (ENGDE), conciliou o trabalho com os estudos, formou-se em Contabilidade e Finanças e foi um dos primeiros portugueses licenciados naquela área em Paris. "Quando me formei até fui ver se existiam outros luso-descendentes com o mesmo diploma, mas nesse momento éramos poucos. Nós não correspondíamos à imagem típica do emigrante português em França", acrescenta.
 
Começou a trabalhar sozinho em 2007, mas dois anos depois decidiu criar o seu próprio gabinete de contabilidade. A sociedade "Amparo Conseil" foi fundada em 2009 e actualmente, para além da sede situada no centro da capital, tem também um gabinete na Normandia. Para além da contabilidade pura e dura, uma das principais funções da Amparo Conseil "é acompanhar os dirigentes das empresas". O nome "Amparo" inspirado num livro do escritor português Miguel Sousa Tavares tem a ver com isso mesmo. Carlos Fernandes quer amparar as empresas, ajudando a desenvolver e a gerir melhor os seus negócios. Em 2007 tornou-se membro da Câmara de Comércio e Indústria Franco-Portuguesa com um único objectivo. Queria passar a ser "um membro activo na comunidade de empresários portugueses" e actualmente tem "vários clientes do país".
 
O ano de 2017 também lhe reservou uma nova aventura. Pela primeira vez viajou até às suas origens para trabalhar, investindo na mesma área através de um novo projecto que está localizado em Lisboa: a Conta Up. Carlos Fernandes é mais um exemplo de um português que viveu mais anos fora do que dentro de Portugal, mas nunca se esqueceu de regressar à terra que o viu nascer e afirma com veemência que "Portugal é um país com futuro".

Nomeado Portugueses de Valor 2019: António Baptista

 

 
António Baptista emigrou com os pais para França quando ainda era pequeno. Tinha apenas 11 anos quando fez a mala, saiu da aldeia que o viu nascer e atravessou a fronteira com os pais e os irmãos. Em Paris formou-se e passou uma boa parte da sua juventude, mas com 27 anos decidiu voar mais longe e correu atrás do sonho americano. Viajou até aos Estados Unidos, instalou-se no país e criou uma família para lá do Oceano Atlântico. "Dei mais um salto e vim para os Estados Unidos", diz-nos. "O meu sogro encontrava-se na América e naquela altura tínhamos todos o sonho americano, aquela ilusão, por isso, decidi vir também". Depois de passar algum tempo nos EUA, António Baptista ou Tony como é conhecido entre os amigos, começou a ponderar regressar à Europa, mas o sogro decidiu apoiá-lo na criação de um negócio e acabou por ficar. Hoje já tem filhos, netos e, apesar de continuar a adorar Portugal, reconhece que estes laços estabelecidos no continente americano tornam impossível qualquer regresso. "Portugal é sempre o meu país de sonho. É onde eu passo as minhas férias, onde fico bem porque sinto que é o meu país e sempre que tenho uma oportunidade vou para lá de férias", diz-nos, "mas tive aqui os meus filhos, eles cresceram cá, hoje já tenho netos e reconheço que é impossível voltar".
 
António Baptista já esteve ligado à construção civil, à restauração, fundou e dirigiu uma Escola de Karaté durante muitos anos e, graças a esse projecto, ajudou muitas crianças e jovens com problemas familiares que precisavam apenas de apoio. "Eu tenho ajudado muitas pessoas, alguns conhecidos outros não conhecidos, mas de facto ao trabalhar nas artes marciais ajudei crianças com problemas de álcool, problemas de drogas e, felizmente, consegui obter sempre bons resultados nesse trabalho. Eu notava que 75% dos problemas vinham de casa, não das crianças e acabei por ajudar a resolver muitas situações delicadas", conta-nos. A Escola de Karaté fechou em 2015 e, actualmente, António Baptista está a trabalhar no ramo automóvel com uma oficina. Confessa que gostaria de investir na sua terra natal e pensa que "em Portugal existem as mesmas possibilidades de vencer" e triunfar.
 
O empresário considera que os emigrantes saem do país com uma missão e lutam por vezes mais quando estão fora, quando estão longe da sua zona de conforto. "Eu acho que nós quando saímos do nosso país, saímos da nossa casa e queremos mudar de situação. No estrangeiro penso que depois trabalhamos com mais força, talvez porque queremos concretizar logo esse sonho do emigrante, mas em Portugal também seria possível e também poderíamos vencer. Aqui a nossa missão é melhorar a nossa vida. Uns conseguem, outros não, mas claro que só saímos do nosso país porque queremos condições melhores, um conforto maior e mais benefícios", afirma. Apesar de ter vivido grande parte da sua vida fora de Portugal, continua a suspirar pelo país que o viu nascer e escolhe-o sempre como destino de férias. Descreve os portugueses como "trabalhadores, pessoas honestas e lutadoras" e pede para terem mais orgulho, para acreditarem mais nas suas conquistas. António Baptista também foi um lutador, conquistou muito para lá do Oceano Atlântico e, por isso, está nomeado para os Portugueses de Valor 2019.

Nomeado Portugueses de Valor 2019: Carlos Mendes Dias

 

 
Inconformista e libertário, Carlos Mendes Dias é um orgulhoso alfacinha. Nascido na freguesia do Socorro, em pleno coração de Lisboa, dos tempos de criança lembra as brincadeiras na rua e dos mimos dos avós e dos bisavós. De espírito livre e contestatário, na juventude pertenceu ao Movimento Associativo dos Estudantes do Ensino Secundário de Lisboa. Das vivências que vieram a marcar o seu carácter, recorda o trajecto que percorria entre a sua casa e o liceu, durante o qual encontrava três estabelecimentos prisionais. Não esquece as ocasiões em que visitava o avó paterno na prisão, onde era guarda prisional. Advogado por sonho e vocação, Carlos Mendes Dias defende a liberdade que acredita ser “o bem mais precioso do ser humano.”
 
A busca pela justiça levou este nomeado a Português de Valor a ingressar na faculdade de Direito. Dedicado a 100% à profissão, durante o ano e meio de estágio realizou dezenas de oficiosas, procurando aprender com a prática, observando e escutando na barra dos tribunais. Lembra que naquele tempo só recebia honorários se o cliente fosse condenado. Ainda era um estagiário e já coleccionava absolvições. Como representante das vítimas de um triplo homicídio, ocorrido a 13 de Agosto de 2012, conseguiu a condenação do homicida a 25 de prisão e o pagamento de um milhão e 900 mil euros de indemnização às vítimas, um recorde em Portugal.
 
Carlos Mendes Dias rege-se pelo rigor. “Não transmitir falsas esperanças, realismo, mas lutar, lutar, procurar resposta e arriscar”, considera. Conta uma vida repleta de conquistas e guarda o sonho de escrever dois livros. Tem de lidar com a saudade dos filhos que estão longe. Dos três, dois deles estão fora do país, um na China, outro em Londres. “Não tenho argumentos, como pai, para dizer que venham para cá, porque sei que, neste momento, seria perfeitamente ruinoso do ponto de vista da construção das suas vidas”. Patriota assumido, as lágrimas escorrem-lhe pela face ao falar dos portugueses. “São os eternos marinheiros do oceano dos sonhos”.

Nomeado Portugueses de Valor 2019: Fernando Amorim

 

 
Tal como o primeiro Rei de Portugal, D. Afonso Henriques, Fernando Amorim tem um traço conquistador. A diferença é que Fernando Amorim nasceu mesmo em Guimarães e sobre o monarca ainda existem algumas dúvidas quanto ao local em que brotou. Nascido no ano em que Portugal passa de uma ditadura para uma democracia, Fernando Amorim agarra os cravos da revolução e escreve o seu percurso de vida. "Tive uma infância tranquila, mais liberta, sem a segurança que tem que haver hoje em dia", afirma. Com um amor eterno à cidade do berço, o vimaranense recorda os seus tempos de juventude com alguma nostalgia. Fernando Amorim é um adepto de uma filosofia diplomática e por isso pauta o seu dia-a-dia com traços de liderança e disciplina. "Comecei no sector segurador, foi o meu primeiro emprego numa seguradora nacional conhecida", afirma.
 
Caminhando a passos largos para o sucesso, Fernando é hoje um profissional que gere as incertezas dos seus clientes transformando-as em vontades certas. Formado em gestão, especialista em gestão de risco, o vimaranense é gestor numa empresa onde maioritariamente existem mulheres a trabalhar. No quotidiano contacta muitas vezes com as comunidades portuguesas além-fronteiras, principalmente com a comunidade residente em França. "É um país tolerante e de grande capacidade emocional. Admiro as pessoas que estão além-fronteiras e que conseguiram desenvolver projectos interessantes. Portugal é um país fantástico", confessa.

Nomeado Portugueses de Valor 2019: Carlos Gomes

 

 
Carlos Gomes teve, desde muito novo, de tomar as rédeas da sua vida. Quando ainda era uma criança, aos 12 anos de idade, ficou a viver sozinho em Viseu, depois de os pais e os irmãos partirem para a Suíça. Esta fase que durou até aos 17 anos acabou por marcá-lo para toda a vida. “É importante termos uma família para onde vamos chegar e mostrar os nossos resultados e partilhar o que nós fazemos, isso é muito importante. É muito mais interessante isso do que viver sozinho. Não gostei de viver sozinho”. Depois de ter terminado o curso de Economia, na Universidade Nova de Lisboa, Carlos Gomes ingressou no mercado de trabalho, iniciando a sua carreira no gabinete técnico do Banco Pinto e Sotto Mayor. Depressa deu nas vistas e passados apenas quatro meses foi transferido para a área comercial. Com 26 anos assumiu a função de sub-gerente do balcão da sede do Banco Pinto e Sotto Mayor.
 
Carlos Gomes acabou por trabalhar no Millennium BCP, que comprou o banco Pinto e Sotto Mayor, e mais tarde, no Banco Espírito Santo de onde saiu por vontade própria e foi então que criou o seu próprio projecto, o Deutsche Bank, com a constituição de quatro agências. Durante a crise financeira de 2008, provou que a adversidade faz, por vezes, a oportunidade e encontrou uma nova oportunidade de negócio na área da protecção do património e assim fez nascer, em 2010, a GoBusiness. “Quando a vida nos dá uma pancada nós temos sempre uma oportunidade para fazer melhor a seguir.”
 
Dedicado ao trabalho, nos negócios rege-se pela independência. É algo que este português de valor não abdica. “Já não me veria a fazer uma coisa em que eu não pudesse ter opinião independente, livre e não condicionada”. Carlos Gomes tem percorrido o mundo e tem percebido que existe um traço comum a todos os portugueses, onde quer que estejam, de onde quer que venham “a empatia faz parte do nosso ADN, nós gostamos de ajudar, gostamos de ser úteis, gostamos de nos misturar com outras pessoas em cada local e isso é um orgulho enorme”.