02 Dec, 2020 Última Actualização 3:17 PM, 1 Dec, 2020

Mapril Baptista: o impacto da Covid-19 nos negócios e a incerteza do futuro

Mapril Baptista fundou a empresa Les Dauphins e a França fez-lhe uma vénia. O empresário fez-se à vida e acendeu as luzes quando se avizinhavam alturas mais sombrias. Conduzir em alta velocidade requer práctica e não é uma tarefa para qualquer um. Mapril ecoou a sirene do seu empreendedorismo e o destino abriu alas a uma chegada triunfante. O português tem o nome bem conotado na região de Paris e a sua reputação é algo que não passa despercebida à República Francesa. Para além de fundador de um negócio de transportes, é também vereador da Câmara Municipal de Pomponne, membro do Lions Club e presidente do Lusitanos de Saint-Maur. Quando era mais jovem, Mapril Baptista acumulou experiências que o tornaram mais apto às adversidades que vão aparecendo. De carácter humano, o português sempre teve a ambição de ajudar quem mais precisa, mas sem nunca deixar de lutar pela sua vida. Hoje, com a crise que todo o mundo vive, face à pandemia da Covid-19, Mapril Baptista expressou à Lusopress as suas preocupações.

Após o surgimento dos primeiros casos de covid-19, e com as medidas de restrição que foram impostas pelos respectivos Governos [França e Portugal], que alterações implementou ao normal funcionamento das suas empresas?

Foi uma modificação enorme. Ninguém estava à espera que uma situação destas ocorresse. A Les Dauphins fechou em Março. Ainda assim, como nós temos uma responsabilidade como qualquer marca de carro, somos obrigados a ter uma assistência porque temos 50 mil carros a andar na estrada a nível nacional. Automaticamente isso exige que haja alguém para atender e responder no caso de problemas na nossa marca. Ou seja, o telefone ficou sempre com uma pessoa 24/24h para atender.  E, com problemas, somos obrigados a enviar uma equipa a nível nacional. Estivemos fechados, apenas com 3/4 pessoas) até meados de Abril. Voltamos a abrir na 3ª feira depois da Páscoa, mas a trabalhar em Chelles com 10% do movimento normal do pessoal. Neste momento, continuamos assim pelo menos até dia 11 de Maio, altura em que o Primeiro-Ministro irá dar indicações para os cidadãos e empresas. Em Portugal estamos a trabalhar com cerca de 40% do pessoal. A partir do momento em que se fecharam as escolas, muitos colaboradores tiveram de ficar em casa para tomar conta dos filhos. Os que continuam a trabalhar, estão em segurança. Alteramos as posições dos carros para estarem mais longe uns dos outros, no sentido em que não haja risco e que estejam longe uns dos outros. Devemos, a partir de agora, viver com segurança. No que diz respeito a empresa de transporte de doentes, que tenho em sociedade com o Stefan Jorge, continua a trabalhar, mas com muitos cuidados. Todo o pessoal está muito mais equipado porque transportam diariamente pessoas com Covid-19 e têm de ter muito cuidado. Na Les Dauphins estamos fechados ao público, só atendendo por telefone ou à porta da empresa, não entram nas nossas instalações.

Que impacto teve nos seus negócios esta situação?

No que diz respeito à Les Dauphins, tínhamos 450 carros encomendados em Fevereiro. Era a média normal, talvez com mais 10% do normal, o ano começou muito bem para nós. Tínhamos um movimento maior que o costume, estava bastante feliz. O que aconteceu foi que travou, por várias razões. A primeira razão é que os nossos clientes transportadores de doentes muitos não tinham equipamentos para poder trabalhar nos hospitais, por falta de máscaras, de fatos, de luvas, por falta de tudo. A partir daí, essas empresas não só ficaram na dúvida do que se ia passar amanhã, mas ao mesmo tempo mandaram o pessoal para o desemprego. Fecharam por completo. Cerca de 25% das empresas francesas de transporte sanitário fecharam. Como estão na dúvida e não facturam, cancelaram os carros que tinham encomendado. Neste momento, 75% das encomendas sobre os 450 carros foram canceladas. Hoje, na Les Duphins pode-se ver 450 ambulâncias novas prontas a ser entregues, mas não temos a quem. Os veículos que não foram cancelados, também ainda não foram levantados. O prejuízo que nos vai dar vai ser enorme, mas não sei qual será o futuro. Não conheço o futuro, depende se essas empresas vão poder funcionar brevemente ou não. É um pouco difícil saber, até agora não tenho a visão de saber o que se vai passar amanhã. Tudo depende, mas evidente que estou muito preocupado com a empresa, mas é assim. Penso que a nível nacional a maior parte das empresas e dos empresários estão com duvidas. 

Na sua opinião, que lhe parecem as medidas de restrição adoptadas pelos Governos, quer em Portugal, quer em França?

Na minha opinião, Portugal teve uma acção muito boa porque tomaram medidas ao mesmo tempo que a França, fecharam as escolas a 13 de Março. Foi radical mas foi bom porque quando Portugal tomou essas ações os números de infectados eram baixos e ainda não haviam mortes. Ao contrário da França, que já foi um pouco mais tarde. Por isso, hoje temos uma diferença entre os dois países. Isto é fácil falar, mas tomar decisões eu sei que é diferente. A verdade é que em França devíamos ter confinado as pessoas entre 15 dias a três semanas antes. Sabemos que neste momento o único remédio é as pessoas estarem isoladas em casa. Vê-se os resultados. Portugal é um dos países da Europa onde tudo está a funcionar melhor. Estou impressionado. Ainda ontem falei com deputados e fiquei feliz e satisfeito com o que se passa em Portugal. Em França foi pena o Governo não ter tomado medidas um pouco mais rápidas. Ainda agora faltam máscaras, luvas e fatos e para um país como a França isso não devia acontecer. Isto sou eu a ver e falar através da minha pequena janela de observação.

No que diz respeito aos apoios concedidos às empresas, parece-lhe o mais apropriado?

Eu penso que as empresas têm de começar a trabalhar novamente, mas com segurança. Penso que o Governo tomou decisões boas que vai no sentido de ajudar as empresas. Primeiro, colocar as pessoas no desemprego já é uma ajuda enorme para as empresas. Também há a possibilidade a qualquer firma que esteja fechada de ir buscar 25% do movimento anual que faz, e isso é positivo. Não é isso que vai resolver os assuntos, evidente, porque a perda que nós temos é enorme, e o dinheiro que eles nos emprestam, iremos ter de pagar, mesmo com juro 0 no primeiro ano. O problema é que o que se está a perder hoje para recuperar é complicado. Esse é o problema maior que eu estou a ver. A solução é aceitar o que se passa e pensar que o mais importante é a saúde e não o trabalho. Neste momento, temos de pôr de lado o trabalho e pensar na saúde das famílias.

Estamos perante uma crise de saúde pública, mas que alastra também ao sector da economia e também ao sector político. Que opinião tem sobre esta crise que se vive a nível mundial? Até onde podem ir as suas consequências?

É difícil responder exactamente. Eu penso que isto a nível mundial vai ser uma crise enorme, os bancos vão piorar a sua situação. Vamos ver se não se complica muto, mas é evidente que os países vão entrar em recessão e vão ter dificuldades enormes. Países como França, Portugal e outros têm de começar a mudar as suas rotinas de trabalho. Automaticamente, para recuperar, e tentar levantar estes países tem de se trabalhar mais. Vai ser um mundo novo, muita coisa vai ser alterada. Neste momento as ações do mercado caíram e não sei que solução existirá, apenas o trabalho.

A nível pessoal, o que mais lhe tem custado com as regras de isolamento social?

O mais implicado para mim, é a quebra da rotina. Estava acostumado a sair às 7h da manhã e chegar às 22h/23horas. Estar um mês em casa sem poder sair foi psicologicamente complicado, de um dia para o outro sem preparação. E não só. Ver o que está a acontecer no mundo, isto complica o cérebro das pessoas. Afectou-me saber que tinha as empresas fechadas, saber que estava a acontecer e com dificuldades em realizar o que estava a ver, porque nunca pensei que uma coisas destas podia acontecer. Pensava que o mundo fosse muito melhor organizado. Se calhar uma guerra era mais fácil. Apesar de esta situação também é uma guerra. Não é normal com tanto dinheiro que se gasta em descobrir curas para as doenças e, no fim, um vírus pode destruir o mundo inteiro e não ter ninguém que o impeça. Outro problema é não sabermos exactamente o que é a Covid-19, descobrimos a pouco e pouco.


Sendo também presidente do US Lusitanos de Saint-Maur, que impacto esta situação tem no futebol?

Um impacto dramático. É uma situação dramática também a esse nível. O campeonato dos amadores foi cancelado, parou tudo e não sabemos o futuro. Não sabemos. Este ano já não há campeonato, pensamos que talvez em Setembro ou Outubro vamos poder jogar outra vez, mas nunca vai ser como foi. A verdade é que tenho pena, porque o futebol é o desporto mais visto a nível mundial. O público e todos nós estamos de luto, é triste. No que diz respeito ao Lusitanos de Saint-Maur, estão todos no desemprego, estamos parados, não sei o que se vai passar. Espero que consigamos continuar, os Lusitanos e todas as equipas. Enquanto não houver uma vacina vai ser difícil ir ver um jogo com 45 ou 80 mil espectadores, é uma realidade que não vai acontecer tao depressa.

Como vereador da Mairie de Pomponne, que trabalho tem desenvolvido?

Neste mês de confinamento, apenas mantive o meu trabalho enquanto vereador. Tenho ido para a Mairie de manhã, porque há sempre coisas a tratar. Ajudamos os nossos cidadãos idosos, eu e outros vereadores. Vamos às compras de manhã cedo para as pessoas que não podem sair e deslocar-se, porque são de certa idade e porque não é aconselhável.

Que mensagem deseja deixar?

A primeira coisa é pedir a quem pode ficar o máximo em casa que o faça, porque a verdade é que só assim se consegue. Sabemos bem que, neste momento, o isolamento é que é o remédio que pode ajudar a que esta crise desapareça. Desejo sorte a todos e que ninguém tenha a pouca sorte de ter a Covid-19. 

FONTE: LUSA

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