Quando para o baile e a saída de um artista é emigrar para França
24 Oct, 2021 Última Actualização 6:00 AM, 24 Oct, 2021

Quando para o baile e a saída de um artista é emigrar para França

Descendente de uma linhagem de tocadores, Miguel Agostinho, foi o primeiro da família a estudar no conservatório regional. Sempre viveu da música e das festas populares até a pandemia o empurrar para as obras públicas na República Francesa.

O bisavô tocava harmónios, o avô concertina e o pai seguiu com o acordeão pelas festas da região de Castelo Branco. Todos tocavam “de ouvido”. Miguel, 42 anos, seguiu as pisadas da família, aprendeu a tocar em casa na infância, mas formou-se como músico no Conservatório Regional de Castelo Branco para poder também lecionar.

O facto de ser músico profissional e de sempre ter vivido da música não lhe garante apoio do Estado enquanto artista. “Recebi apenas um pequeno apoio, no ano passado, durante seis meses, mas como trabalhador independente que viu a sua atividade parada, bloqueada pela pandemia, não como artista, em específico. Daí nada! Não vi nenhuma porta aberta nesse sentido para mim”, contou o acordeonista, em entrevista à agência Lusa.

Pela mão de um amigo encontrou trabalho nas obras públicas de França, destino tradicional de emigração de uma grande parte das populações do interior do país. “Vivia totalmente da música. Paralelamente às festas, dava aulas de música. Com esta situação da pandemia, as coisas tornaram-se complicadas. Vimos a nossa situação parada de um dia para o outro”, assumiu.

Dos contactos que tinha em França, onde atua para as comunidades portuguesas há mais de 20 anos, surgiu inicialmente a ideia de aí desenvolver um projeto para uma escola de música. Porém, também em França a pandemia alterou as oportunidades. “Houve um amigo que me convidou para trabalhar com ele e tenho estado a trabalhar em França numa área que não tem rigorosamente nada a ver com a música, mas pelo menos mantém-me ocupado e vou ganhando algum dinheiro, porque as despesas mantêm-se, os impostos mantêm-se também. Tenho de continuar a pagar os meus impostos, mesmo sem ganhar”, afirmou.

A última faturação que fez como músico foi em fevereiro do ano passado: “Há mais de um ano que não tenho um cêntimo de rendimento da música, que não passo uma fatura, que não faço uma festa”. Além de tocar músicas tradicionais do cancioneiro popular português e temas de outros artistas, Miguel Agostinho compõem e tem discos gravados. Entre os originais que editou, a música “Sou Beirão” retrata na letra o que era ainda um caminho que não imaginava traçar: “Sou da Beira, sou Beirão/Deixei cá meu coração/Numa aldeia junto à serra...”.

A partida aconteceu em setembro. “Não tinha planos para ir. Fui mesmo por causa da pandemia. Andei a aguentar, a aguentar, naquela esperança de que as coisas iam melhorar mais dia menos dia, mas a tendência que houve foi para piorar e não para melhorar”, disse. Enquanto artista, Miguel Agostinho define-se como alguém que tem “uma enorme paixão” pelo que faz. “Gosto de transmitir essa paixão às pessoas, gosto de chegar aos arraiais, de ver as pessoas a dançar”, expressou, com entusiasmo.

Um entusiasmo que já não faz questão de transmitir aos filhos. “Tenho instrumentos em casa para eles tocarem, gosto que desenvolvam um bocadinho, mas não os vejo com muita vontade de levar as coisas para um nível profissional e sinceramente, depois de ter passado por isto que passei e estou a passar, de momento, não tenho nenhuma vontade de puxar mais por eles, de os incentivar, de forma nenhuma”, assegurou.

Das comissões de festas, dos amigos e admiradores tem recebido mensagens de apoio. Natural de Cardosa, uma aldeia do concelho de Oleiros (Castelo Branco), Miguel Agostinho toca a solo, mas não raras vezes partilha o palco com o pai, hoje dedicado à iluminação e ornamentação dos arraiais. “As pessoas gostam sempre de ver pai e filho lado a lado. O meu pai é muito conhecido aqui na região, desde que andava de motorizada, com o acordeão às costas a fazer por aí bailaricos e casamentos”, recordou.

Voltar aos arraiais é, por agora, apenas um desejo. “O que sabemos é que fomos os primeiros a parar e vamos ser os últimos retornar”, frisou. Na primeira oportunidade regressa a Portugal: “Estou cheio de vontade. Embora ainda esteja fora do país é mesmo por necessidade, não por uma opção direta, se estou é porque fui obrigado a isso e não quero de forma nenhuma deixar esta carreira musical”.

Para o futuro, apenas uma certeza. A próxima festa há de ser “uma grande festa”.

FONTE: LUSA 

Newsletter

Subscreva a Newsletter para receber conteúdos semanais sobre Portugal e toda a comunidade Portuguesa!

 

Outras Notícias

OE2022: Eleições para Conselho das Comunidades vão ter projeto-piloto de voto eletrónico

O Governo prevê realizar um projeto-piloto de voto eletrónico à distância nas eleições para o Conselho das Comunidades Portuguesas, que se realizam em março de 2022, segundo a proposta do Orçamento do Estado (OE2022).

Ler notícia

Expositores portugueses na feira internacional das industrias do ambiente em Lyon: POLLUTEC.

A feira bienal internacional POLLUTEC que terá lugar de 12 a 15 de Outubro no Parc des Expositions Lyon Eurexpo, é uma das maiores exposições mundiais do sector do ambiente (equipamentos, tecnologias e serviços ambientais), que reúne um universo de importantes empresas fabricantes de equipamentos e processos industriais assim como empresas de serviços industriais.

Ler notícia

Sobe número de eleitos regionais e departamentais de origem portuguesa em França

Após as eleições regionais e departamentais em França, a comunidade portuguesa está representada com cerca de 20 eleitos nos conselhos departamentais e mais de 10 nos conselhos regionais, uma subida em relação a 2015, segundo fonte oficial.

Ler notícia

Governo eleva classificação dos vice-consulados de Portugal em Toulose e em Vigo

O vice-consulado de Portugal em Toulouse será elevado a consulado e o vice-consulado de Portugal em Vigo passará a consulado-geral, no âmbito da reorganização da rede externa prevista no novo Regulamento Consular, anunciou hoje o Governo.

Ler notícia

Organização portuguesa no Canadá distribui 45 bolsas de estudo no valor de 47,5 mil euros

Uma organização portuguesa no Canadá distribuiu na semana passada 45 bolsas de estudo a alunos lusodescendentes do ensino pós-secundário no valor de aproximadamente 70 mil dólares canadianos (47,5 mil euros).

Ler notícia