Através da peça La Fleur au Fusil, o autor e ator Lionel Cecílio recupera a memória da ditadura portuguesa e da Revolução dos Cravos. Em Paris, o espetáculo cruza a História com as recordações familiares para refletir sobre a liberdade, a democracia e a importância de transmitir o passado às novas gerações.

A ideia para a peça surgiu de uma descoberta inesperada. Nascido em França, Lionel Cecílio desconhecia a história da Revolução dos Cravos até encontrar uma publicação nas redes sociais. Surpreendido com a sua própria ignorância, decidiu telefonar à avó para lhe perguntar por que razão nunca lhe tinha contado aquele episódio da História de Portugal.
“Perguntei-lhe como era possível nunca me ter contado aquela história. E ela respondeu-me: ‘Porque é que nunca me perguntaste?’”, recordou à LusoPress.
A conversa levou-o a explorar a relação entre avós e netos e a forma como cada geração transmite os seus conhecimentos. No entanto, a história da família conduziu-o inevitavelmente ao Estado Novo, a Salazar e ao 25 de Abril.
Na peça, a personagem principal chama-se Celeste, como a avó do autor e Celeste Caeiro, que ficou conhecida por distribuir cravos aos militares no dia da revolução. Através desta personagem, Lionel Cecílio cruza memórias íntimas com acontecimentos históricos e dá voz a diferentes figuras da época.
O teatro como forma de aprender História

Antes de escrever o texto, o autor dedicou quase três anos à investigação sobre a ditadura e a Revolução dos Cravos. Depois, escreveu a peça em cerca de três semanas e preparou o espetáculo durante aproximadamente dois meses, com o encenador Jean-Philippe Daguerre.
Para Lionel Cecílio, o rigor histórico representa uma responsabilidade essencial. “A minha peça não é uma conferência nem um livro de História, mas tem a responsabilidade de transmitir um acontecimento pouco conhecido e que merece ser conhecido”, afirmou.
Além disso, o contacto com o público revelou-lhe que muitos franceses, portugueses jovens e lusodescendentes conhecem apenas superficialmente este período. “Sabem que houve uma ditadura, mas desconhecem muitos dos acontecimentos desse período”, observou.
Por isso, o teatro procura despertar a curiosidade, emocionar e incentivar os espectadores a aprofundarem os seus conhecimentos.
A liberdade não está garantida
Mais de cinquenta anos depois da Revolução dos Cravos, Lionel Cecílio considera fundamental recordar as dificuldades que marcaram a mudança de regime. “Dizemos que a revolução se fez com flores nos canhões, mas o processo foi muito mais complexo e difícil para quem o viveu”, sublinhou.
A reflexão estende-se à atualidade política europeia, perante o crescimento da extrema-direita em países como França e Portugal. O autor alerta para a fragilidade dos direitos conquistados e para a necessidade de proteger a democracia.
“A democracia conquista-se com muitas dificuldades e pode perder-se muito rapidamente”, avisou.
Nesse sentido, defende que as novas gerações devem assumir um papel ativo na sociedade, sem esquecer que a luta contra a opressão exige consciência e sentido crítico. “Temos de manter a cabeça fria e a capacidade de refletir, para não nos transformarmos naquilo que combatemos”, afirmou.
Manter viva a memória de Abril
Em Paris, La Fleur au Fusil já contou com perto de 200 apresentações e passou três vezes pelo Festival de Avignon. O espetáculo regressa agora à capital francesa, no Théâtre La Scène Parisienne.
No final das sessões, Lionel Cecílio conversa com os espectadores e ouve as suas reações. Acima de tudo, valoriza quem decide procurar os familiares para recuperar histórias esquecidas.
“O que mais me orgulha é quando alguém, seja português ou francês, me diz que o espetáculo lhe deu vontade de falar com os avós, de abrir o diálogo em casa e de fazer perguntas que nunca tinha feito”, contou.
Assim, a peça ultrapassa o palco e transforma-se num convite ao diálogo entre gerações. Porque recordar Abril não significa apenas celebrar uma data: significa compreender o passado, questionar o presente e preservar a liberdade para o futuro.
A peça está em cena no Théâtre La Scène Parisienne, em Paris, até 2 de janeiro.



