Acordo UE-Mercosul: diáspora empresarial é a ponte atlântica que falta

Lisboa recebeu um Seminário dedicado ao Acordo UE-Mercosul, organizado pela Casa da América Latina. Carlos Moedas defendeu que “a história, por si só, não fecha um negócio”. E é precisamente aqui que o Acordo pode marcar uma mudança: transformar proximidade, em relações económicas concretas.

Lisboa recebeu um Seminário dedicado ao Acordo UE-Mercosul, organizado pela Casa da América Latina

Lisboa recebeu um Seminário dedicado ao Acordo UE-Mercosul, organizado pela Casa da América Latina

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Durante demasiado tempo, quando se falou da relação entre Portugal e a América Latina, a proximidade histórica, cultural e linguística foi apresentada como uma vantagem quase automática. Mas, como destacou Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal de Lisboa e Presidente da Casa da América Latina, na abertura do Seminário dedicado ao Acordo UE-Mercosul, organizado por essa instituição no dia 29 de setembro, “a história, por si só, não fecha um negócio”. É precisamente aqui que o Acordo pode marcar uma mudança: transformar proximidade, em relações económicas concretas. 

Paulo Rangel, Ministro dos Negócios Estrangeiros, sublinhou a dimensão geoeconómica e geopolítica do entendimento entre os dois blocos, num contexto internacional marcado pelo protecionismo. Ramón Jáuregui, Presidente da Fundación Euroamérica, coorganizadora do evento, chamou a atenção para a importância estratégica da América Latina e da valorização do eixo euro-atlântico Sul, enquanto a Ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, destacou a parceria com Brasil, para produzir biocombustíveis, através da construção de fábricas em território nacional, com investimento brasileiro, reduzindo a dependência do país em combustíveis fósseis.    

Por outro lado, mais do que uma questão de taxas alfandegárias, o Acordo deve ser entendido como uma oportunidade para desenvolver cadeias de produção e de serviços transatlânticos, sublinhou Paulo Matheus, diretor da APEX Brasil em Portugal. O sucesso dependerá de parcerias, agilidade e conhecimento dos mercados. É neste terreno que a economia real ganha expressão e onde a diáspora empresarial portuguesa pode fazer a diferença. Por detrás de cada produto que atravessa o Atlântico existe uma cadeia de empresas, fornecedores, transportadores, distribuidores, serviços financeiros, tecnologia e logística. O comércio não termina quando uma mercadoria chega ao destino: é aí que começa uma nova cadeia de valor e novas oportunidades de negócio. 

Acredito que esta realidade é particularmente relevante para Portugal, cujo tecido empresarial é fortemente constituído por PMEs. Muitas não dispõem, isoladamente, dos recursos necessários para entrar num mercado tão vasto e complexo como o sul-americano. É neste ponto que a diáspora empresarial pode assumir um papel estratégico. 

No Brasil, na Argentina, no Uruguai e no Paraguai existem empresários portugueses e lusodescendentes que conhecem os mercados por dentro. Conhecem consumidores, fornecedores e interlocutores institucionais e empresariais e construíram, ao longo de décadas, redes de confiança. É uma vantagem que não aparece nas estatísticas do comércio externo. 

Pela minha experiência, uma PME portuguesa que queira internacionalizar-se no Mercosul precisa de mais do que um produto competitivo. Precisa de parceiros, conhecimento local e capacidade para compreender regras, distribuição e características de cada mercado. Muitas vezes, é aí que se encontra a diferença entre identificar uma oportunidade e concretizar um negócio. 

O Acordo UE-Mercosul pode ser entendido como uma porta que se abre. A diáspora empresarial portuguesa pode ajudar a atravessá-la: aproximando empresas, facilitando contactos, apoiando processos de internacionalização e transformando relações pessoais e institucionais em parcerias económicas. Como testemunhado neste Seminário, a relação não se limita às exportações de bens. Serviços, turismo, tecnologia, energia, logística, consultoria e economia digital fazem parte de uma realidade económica, muito mais ampla. O verdadeiro impacto do Acordo será medido pela capacidade de gerar novas cadeias de valor, investimento e negócios entre os dois lados do Atlântico. 

É uma mudança de paradigma que Portugal não deve desperdiçar. A língua, a história e, sobretudo, as comunidades empresariais portuguesas instaladas na América Latina constituem uma vantagem competitiva. O desafio está agora em transformar essas pontes, numa estratégia de internacionalização, sem preconceitos, transgeracional e eficaz para quem quer gerar valor para a sua empresa e para a sua comunidade, ajudando a desenvolver o país de onde se saiu e o país a que agora chamam casa.

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