23 Feb, 2019 Última Actualização 6:32 PM, 22 Feb, 2019

Nomeado Portugueses de Valor 2019: Carlos Boiça

 

 
Carlos Pinto Boiça, nascido a 25 de Março de 1948, no concelho de Coimbra, é um dos portugueses em que o factor determinante que o levou aos 17 anos, celebrados no decorrer da viagem, a rumar a França, foi poder libertar-se de um Serviço Militar obrigatório que teria inevitavelmente marcado um trajecto bem diferente daquele que ambicionava construir. Paris foi o seu destino e como tantos outros exemplos da nossa emigração, começou por trabalhar na construção civil. Primeiro com o seu avô e posteriormente com o seu tio, esta dura actividade serviu-lhe de alavanca para alcançar o sucesso, tornando-se um dos pioneiros da restauração portuguesa na capital francesa.
 
Dizem que na vida não há coincidências, pois num dia em que o frio não permitia o exercício da sua árdua actividade, ao abrigar-se da intempérie num restaurante, foi-lhe dito que se de um restaurante procurava, ali bem perto encontraria um disponível para venda. E foi assim que decidiu, junto com a sua mulher, lançar-se nessa aventura da restauração. Após ultrapassadas burocracias para que pudesse obter todas as licenças necessárias para o exercer deste novo desafio, o serviço militar volta-lhe a bater à porta. Desta vez em França, engenhosamente conseguiu libertar-se de novo recrutamento, em apenas dois dias foi passado à reserva pois não havia maneira de seguir as instruções que lhe eram dadas.
 
Decide na década de 80 regressar com a família para o país que o viu nascer e manteve-se ligado à restauração. Mas as diferenças encontradas em Portugal, em termos das complicações burocráticas, tão simples em França, tão complexas em Portugal, aliadas às diferenças salariais, quase o fizeram voltar a França. Numa oportunidade em Albufeira, decide alugar o espaço do restaurante no parque de campismo. Daí a tornar-se o proprietário do parque, foi uma caminhada de luta, de suor e muito sacrifício, mas com resultados brilhantes. Expandiu-se ao ponto de investir no Brasil. A vida dá muitas voltas e saber agarrar as oportunidades que ela nos dá faz com que Carlos Boiça olhe para trás e diga: “faria tudo de novo”.

Nomeado Portugueses de Valor 2019: Rui Nascimento

 

 
Rui Nascimento é engenheiro e tem uma empresa que desenvolve vários projectos de arquitectura em Paris. Apesar de estar em França, de trabalhar para o mercado sobretudo parisiense, Rui nunca esqueceu as suas origens, considera a sua empresa “franco-portuguesa” e acabou por investir em Portugal. Actualmente tem gabinetes no país, desenvolvendo o mesmo tipo de trabalho nas suas raízes. “Todos os meus clientes sabem que trabalham com um gabinete que é franco-português porque temos gabinetes em Portugal e em França e isso faz com que as empresas francesas reconheçam o nosso trabalho”, diz-nos. Rui confessa que no seu ramo “o mercado francês, e nomeadamente a região de Paris, é bastante importante”, contribuindo de forma determinante para o sucesso da sua empresa. Tal como todos os portugueses residentes no estrangeiro, confessa que as saudades da pátria são imensas e ainda o aproximam mais da cultura portuguesa. “Como todos os emigrantes, o facto de estarmos longe do país faz com que o que nos liga a Portugal seja ainda mais forte e isso tem uma incidência no meu dia-a-dia, na minha maneira de estar”, refere.
 
O empresário considera os portugueses patriotas, gosta de apoiar os recém-chegados a França porque, tal como eles, também sentiu os primeiros problemas da emigração e não esquece quem o apoiou. “Eu faço como muitos dos nossos compatriotas e tento ajudar pessoas que vêm há pouco tempo de Portugal, como foi o meu caso. Eu tive a sorte de ter alguma família quando cá cheguei e não me esqueço desse acolhimento”, recorda. Neste momento, a sua empresa dá trabalho a 14 funcionários portugueses e, para além da aposta empresarial no país, Rui Nascimento também tem um apartamento em Portugal e aconselha outras pessoas a investirem na sua terra. “Nós somos como as outras nacionalidades e tal como elas também temos todo o tipo de defeitos”, diz-nos, “mas em termos de qualidades, eu acho que o que nos diferencia é o facto de nos conseguirmos adaptar às diferentes situações. Estamos em todos os países do mundo e somos vistos sempre como um povo muito trabalhador e respeitoso”, afirma.
 
Rui Nascimento é um grande admirador de Francisco Sá Carneiro, tem a sua personalidade como exemplo e espera que os portugueses mantenham a imagem que têm actualmente, transmitindo-a para as gerações futuras. “Eu espero que os portugueses continuem a ser como são, que mantenham esta imagem de povo corajoso e trabalhador, continuando com o legado dos nossos pais e passando-o também para os nossos filhos”, sublinha.

Nomeada Portugueses de Valor 2019: Teresa Coelho

 

 
Teresa Coelho é nazarena, nasceu e cresceu apreciando as ondas da Nazaré, frequenta a lota "desde pequenina" e durante o seu percurso profissional esteve sempre ligada ao mar, somando um currículo extenso nesta área. Aos 18 anos deixou a sua terra natal e licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Durante dois anos esteve em Paris, onde alcançou o diploma de Francês e Civilização Francesa na Universidade de Sorbonne em 2004 e um ano depois concluiu o Mestrado em Gestão de Recursos Humanos na Escola Superior de Gestão de Paris (Paris Graduate School of Management). Teresa Coelho confessa que esta passagem pela capital francesa foi "muito enriquecedora" e ainda hoje recorda o ambiente vivido nas aulas. "O facto de ter estado em Paris tornou-me mais pragmática", diz-nos. "Ainda por cima, na turma onde eu estava, haviam sobretudo franceses, mas depois havia uma inglesa, um espanhol, uma venezuelana também, portanto, o convívio com as diferentes culturas foi muito enriquecedor", sublinha.
 
Teresa Coelho foi sozinha com o marido até França e o filho do casal acabou por nascer em Paris. De regresso a Lisboa, deu os primeiros passos de um longo caminho "ligado às pescas" e viu que "Portugal tem um mar de oportunidades". É quadro superior da Docapesca há vários anos e já passou por muitos gabinetes governamentais, tendo desempenhado funções de subdirectora-geral das Pescas e Aquicultura e representado Portugal em várias instâncias internacionais. Em 2016, depois de ter sido chefe do gabinete do Secretário de Estado das Pescas e da Ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, foi convidada pelos próprios para ser Presidente do Conselho de Administração da Docapesca. Desde 23 de maio de 2016 que Teresa Coelho desempenha essas funções e acompanha a promoção do sector das pescas em Portugal. "Efectivamente, a Docapesca é uma empresa que tem vindo a acompanhar o sector e a acompanhar os diferentes agentes económicos nas feiras internacionais. Tem conseguido promover o sector das pescas, tem conseguido promover Portugal como o melhor peixe do mundo e, portanto, acho que tem desempenhado um papel fundamental", diz-nos.
 
Teresa Coelho já foi autarca, já fez parte de associações de bombeiros e de vários grupos desportivos, mas olhando para trás, reconhece que o factor mais enriquecedor da sua carreira foi "o convívio com as gentes dos mar". "É um convívio diferente, mas a boa relação que nós conseguimos ter, o facto de conseguirmos estar junto dos pescadores e conseguir-lhes explicar às vezes mensagens que são difíceis de passar tendo uma relação de proximidade com eles, é o objectivo da minha actividade profissional que mais me enriquece. Eu quero estar próxima das comunidades piscatórias", afirma. Viaja muito pelo mundo, adorou viver em Paris, mas confessa que quando está fora, tem sempre "saudades de Portugal". "Paris é uma cidade magnífica e se tivesse que voltar a sair, ia para lá, mas a luz de Lisboa, a luz do nosso país não há no resto do mundo. Eu acho que não há luz igual à nossa".
 

Nomeado Portugueses de Valor 2019: Arlindo dos Santos

 

 
Arlindo dos Santos nasceu na aldeia de Cepelos. Cresceu no Norte de Portugal, no concelho de Vale de Cambra, mas tal como muitos portugueses, veio para França ainda jovem. “Precisava de arranjar trabalho” e, por isso, começou na área da construção, nos revestimentos de fachadas. Em abril de 1987, decidiu fundar uma empresa e aventurou-se por conta própria. A “Entreprise dos Santos Arlindo” começou apenas com três empregados determinados e com vontade de avançar. Com o tempo, o negócio evoluiu e actualmente o empresário é presidente do grupo DSA. Com mais de 600 funcionários e uma estrutura que poucos atingem, este grupo reúne um portfólio composto por 10 empresas que cobrem todo o território francês. Dedica-se essencialmente à criação de fachadas em construções, ao isolamento térmico exterior e à renovação interior e exterior. Abrange tanto os materiais convencionais, como o gesso, a pintura, o tijolo, ou argila, como técnicas mais modernas, tais como o isolamento térmico do lado de fora ou de renovação de energia.
 
O empresário recorda que “foi evoluindo pouco e pouco”. Em 2004, a empresa abandonou a sede localizada na cidade de Cachan, no departamento Val-de-Marne e mudou-se para Chilly-Mazarin. Actualmente, o grupo DSA tem novas instalações situadas em Massy, nos arredores de Paris. O empresário está convicto que “só a coragem e a vontade das pessoas é que podem mudar a vida”. Arlindo é determinado e teve talvez a coragem necessária para avançar. “É preciso trabalhar, ser sério e sofrer certos riscos porque nem sempre tudo é dado”, afirma. O empresário já teve alguns percalços, já conheceu o reverso da moeda, mas hoje colhe os frutos. “Foi difícil fundar a empresa, passar por aquelas dificuldades, mas hoje estou contente”, confessa. Quando está a falar do seu trabalho, nunca esquece os funcionários. Muitos deles já somam mais de 20 anos de casa e são “quase família”. “Eu gosto de os ter do meu lado porque foi com eles que eu consegui chegar até aqui”.
 
Arlindo descreve-se como “uma pessoa discreta” e “séria”. Desvia-se das câmaras, não procura protagonismo, embora o mereça. Lembra que “a vida pode ser curta” e, por isso, não pede nem espera muito mais do futuro. “Amanhã espero consolidar o que eu fiz até hoje”, disse à Lusopress. Durante 30 anos, construiu um grupo sólido no estrangeiro, mas ainda tem saudades da terra onde nasceu. Arlindo dos Santos afirma que a França tem o seu respeito, mas Portugal pode contar sempre com o seu patriotismo. “O meu hino será sempre o português”.

Nomeado Portugueses de Valor 2019: Aires Mendes de Abreu

 

 
Aires cresceu e foi educado no distrito de Leiria, em Pombal. O pai já era emigrante em França e estava com ele apenas nas férias. Na bagagem trazia a saudade e algumas prendas que ainda hoje recorda com um sorriso. "Uma vez ele levou-me duas bicicletas dentro do comboio para me dar de prenda. Naquele tempo eram poucos os que tinham uma bicicleta em Portugal. Eu já emprestava e alugava as bicicletas quando era pequenito", conta. Previa-se assim um jeito para o negócio que, mais tarde, veio mesmo a confirmar-se. Aires seguiu os passos do pai assim que conseguiu. Via nele uma inspiração e procurou ser sempre "bem alinhado" como ele desejava.
 
Em 1971, com apenas 17 anos, partiu para França e, apesar da tenra idade, começou logo a trabalhar na construção. "Cheguei a um domingo, no fim de Agosto, e comecei a trabalhar logo na segunda. Já tinha arranjado trabalho nas obras. A primeira coisa que eu aprendi a fazer foi a colocar azulejo", recorda. Durante alguns anos, ainda trabalhou num restaurante nos arredores de Paris, mas não foi na restauração que se lançou melhor por conta própria. Na França começou a construir casas e criou os pilares para uma empresa e família sólida. Aires formou uma equipa com a esposa. Juntos, encontraram a táctica certa e criaram a sociedade "ArchiBat". "Como a minha mulher era arquitecta e eu já percebia de construção, foi só avançar. A minha esposa fazia o projecto, eu construía e vendia as casas depois de já estarem feitas. Nunca trabalhava para particulares", recorda. Manuela idealizava, ele executava. "A minha esposa tinha uma arquitectura fora do normal, muito trabalhosa, mas muito bonita no final". Mais tarde, aventuraram-se na construção de prédios e procuraram deixar uma marca bem portuguesa no primeiro trabalho. A residência Magellan foi baptizada pelo emigrante e é uma homenagem ao célebre navegador português Fernão de Magalhães. "Eu gosto de ser português a 100%. Os nossos navegadores foram fortes e descobriram muitas coisas, mas nós também fomos fortes e viemos construir uma boa parte da França".
 
Já emigrou há 45 anos, mas continua a ajudar freguesias e associações do concelho de origem, em Pombal. "Não posso ir a Portugal sem ir à minha terra. Fiz isso uma vez e fiquei doente", confessa. Apesar de ainda ter vários prédios alugados e novas construções no horizonte, encerrou a empresa há alguns anos. Neste momento, dedica-se ao golfe e é um grande coleccionador de carros antigos. As colecções, tal como os sonhos, não param de crescer e confessa que gostava de ter até um museu no Algarve. Com mais de 60 anos garante, que é um homem feliz e termina a conversa lembrando: "tive sorte talvez, mas também a procurei".